quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Google é a NSA

– Não se deixe espiolhar:   Duckduckgo , o motor de pesquisa que não rastreia


por Phil Butler [*]
 
O Google quer ser os olhos do Big Brothers fitos sobre si. Todos os gurus da Internet sabem isto mesmo antes de a NSA ser descoberta a espionar tudo. Mas agora os rapazes da Moutain View [sede da Google] estão mais determinados do que nunca a filtrar a sua informação e a eliminar qualquer resquício de confiabilidade.

Se eu tivesse iniciado um artigo com o parágrafo acima há cinco anos atrás, instantaneamente teria sido etiquetado como um "teórico da conspiração" ou pior ainda. O que pensa disso, caro leitor? Será a ideia de tecnocratas e dos seus manipuladores enormemente endinheirados enlouquece-lo? Penso que sim. Mas se precisa de prova para além do óbvio, o manual de 160 páginas do Google conta-nos exactamente como eles planeiam alimentar-nos só com as "suas" notícias. O extenso manual é uma leitura pesada para a pessoa média, mas o livro fornece pormenores de uma maquinação orwelliana diferente de qualquer coisa já vista desde o aparelho de propaganda nazi. Preste muita atenção à "instrutiva" página 108 onde a Google dita quem cumpre e não cumpre seus critérios de classificação. A secção Falha de Cumprimento (Fails to Meet, FailsM) é um cilindro compressor da imprensa livre e sugere a ocultação de certas espécies de sítios web:

"Páginas que contradigam directamente factos históricos bem estabelecidos (ex.: infundadas teorias da conspiração), a menos que a consulta indique claramente que o utilizador está à procura de um ponto de vista alternativo".

Como de costume, a Google obscurece suas intenções reais com a ideia de que algum algoritmo super inteligente está a "filtrar" ou "aprender" resultados para ajudá-lo a ter uma vida melhor. Mais uma vez, a Google supõe fazer "o que é bom para nós" através da destruição de algumas fontes e a promoção de outras. Utilizando termos como "graduando linhas orientadoras para pesquisa de qualidade" e "graduando linhas orientadores para páginas de qualidade" os pequenos Maquiaveis da Google providenciam justificação para controlar o que você vê e lê na web. Censura e monopolização da informação e dos negócios na internet – esta é acusação contra os rapazes da Mountain View.

Há também a secção que se refere ao modo como a Google classifica o melhor dentre os melhores sítios de notícias intitulado "Um alto nível de perícia/ autoridade/ fidedignidade" ("A High Level of Expertise/ Authoritativeness/ Trustworthiness", EAT). O acrónimo EAT ("comer") deveria servir de pista acerca do facto de os utilizadores da pesquisa Google estarem prestes a serem comidos por alguma verdade trapalhona. Para os oligarcas da Google, "Páginas de alta qualidade" significam ou que o dono da página paga à Google ou que o sítio em causa serve muito bem aos mestres da Google – ponto. No topo da matriz de fontes estão jornais (High News 1) como The Washington Post e New York Times, seguidos por artigos no interior desses sítios (High News 2). A seguir na lista das páginas de autoridade estão sítios governamentais como o Departamento de Estado dos EUA e a Casa Branca e depois páginas categorizadas (acredite ou não) como "Grande Humor" ("High Humor"). Dessa forma, a Google excluiu a importância da verdade ou mesmo a importância da própria notícia em favor de "quem" a escreveu e da "realidade" que a Google quer que você aceite – a rede do Big Brother.

Melissa Dykes, da Truth Stream Media fez um vídeo acerca do novo esforço do Big Brother e o sítio web Escravos do governo também fez a sua parte. Estes últimos sugerem mesmo alternativas à utilização da Google Search àqueles que recusam as tendências totalitárias a que agora assistimos. Para pessoas que preferem boicotar o mal iminente tais como [os motores de pesquisa] Yandex e DuckDuckGo . Os escravos do governo também listam 400 sítios para noticiário independente fora da MATRIX da Google. Meu conselho para toda a gente é começar já a fazer a transição para longe da Google e do Facebook. A minha própria vasta experiência em tratar com pessoas voltadas para a técnica revelou serem gente sem qualquer moral, desejosas de fazer seja o que for para perpetuarem a sua dominação no digital. A Google destruiu milhões de profissões, rompeu o seu próprio código, seus juristas contornaram regras anti-trust e de práticas justas, evitaram impostos e colaboraram com as agências de inteligência contra o povo dos Estados Unidos. Todas estas afirmações não são apenas divagações do autor deste artigo. Remontando a 2014, John W. Whitehead escreveu acerca da NSA e do Google no Huffington Post :

"Simplesmente olhe em torno. Isto já está a acontecer. Graças a uma parceria insidiosa entre a Google e a National Security Agency (NSA) que se torna cada vez mais invasiva e mais subtil a cada dia que passa, "nós o povo" tornámo-nos pouco mais do que consumidores de dados mercantilizados a serem comprados, vendidos e pagos repetidamente".

Em 29 de Agosto o famoso criador do Zero Hedge, Tyler Durden, escreveu uma peça intitulada "Porque a Google fez a NSA", a qual revelava um projecto chamado INSURGE INTELLIGENCE , um projecto de jornalismo de investigação financiado colectivamente que havia divulgado um artigo sobre como a comunidade de inteligência dos Estados Unidos financiou, alimentou e cultivou a Google como parte de uma iniciativa para dominar o mundo através do controle da informação. Leu isto correctamente. Minhas afirmações anteriores de que Sergey Brin e Larry Page foram "ascendidos" por dinheiro desconhecido provavelmente estavam correctas. Apesar de eu ter presumido que George Soros ou Rockfeller estivessem por trás, é concebível que o Tio Sam fosse o fantasma na retaguarda. A notícia do Zero Hedge investiga um "estado profundo" nunca imaginado nos nossos piores pesadelos. A reportagem revela como o grupo do Pentagon Highlands Forum's está a capturar gigantes tecnológicos como a Google a fim de prosseguir a vigilância em massa. Além disso, a reportagem mostra como a comunidade de inteligência desempenhou um papel chave em esforços secretos para manipular os media e o público. As crises e guerra infindáveis com que nos deparamos são, em grande medida, devidas aos esforços da Google e de outras instituições tecnocráticas. O autor enquadra o modo como a administração Obama realmente consolidou este controle do "Big Brother":

"Com Obama, o nexo do poder corporativo, industrial e financeiro representados pelos interesses que participam no Pentagon Highlands Forum consolidou-se num grau sem precedentes".

Estas pessoas referem-se a sim próprias como "os guardas da portaria" ("the gatekeepers"). A sua arrogância só é ultrapassada pelo seu agnosticismo moral. Os êxito da era da informação, as dúbias minas de ouro do capital de risco de Sillicon Valley, os caminhos misteriosos pelos quais inovadores razoavelmente comuns foram impulsionados para as luzes dos holofotes advertem-nos quanto ao pântano subjacente descrito por Donald Trump. Mas é a imensidade da rede que deveria servir-nos de pista. Imagine o novo presidente a tomar posse e a defender-se de ataques tão bem quanto pode, só para descobrir que toda a máquina do governo dos EUA está influenciada por este controle. Depois de saber tudo isto é fácil teorizar sobre como Trump fez meia volta acerca de muitas questões. Ele deve ter sido subjugado. Ou fazia parte do plano desde o princípio.

Finalmente, se nos estendermos acerca destas notícias e incluirmos outros tecnocratas como Bill Gates ou Jeff Bezos, então o entendimento das crises mundiais provocadas pela má política dos EUA torna-se mais simples. Trata-se de uma corporação – tudo isto é uma corporação para a guerra e o atrito. Bezos a passear com o antigo general dos Fuzileiros Navais e actual secretário da Defesa, "Cão Louco" Mattis, na Amazon é simbólico. O posicionamento de Trump para com Israel, os sauditas ou mesmo a política interna diz-nos que aquelas promessas da campanha afundam na esteira da nau do estado profundo a pleno vapor. Se permitirmos à Google e aos demais actores continuarem sem controle...

Bem, vocês são tão capazes quanto eu de completar a sentença. Só rezo para que não seja demasiado tarde.
 

[*] Investigador e analista político.

O original encontra-se em journal-neo.org/2017/09/04/we-told-you-so-google-is-nsa/


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Washington parece um jardim-de-infância sob o efeito de LSD


por The Saker 
 
As últimas sanções e a resposta retaliatória da Rússia resultaram numa torrente de especulações nos media oficiais e na blogosfera — toda a gente tenta entender uma situação que parece sem sentido. Porque haveria o Senado dos Estados Unidos de adoptar sanções contra a Rússia quando a Rússia nada fez para provocar esse voto? Com a excepção de Rand Paul e Bernie Sanders todos e cada um dos senadores americanos votaram a favor dessas sanções. Porquê? Torna-se ainda mais estranho se pensarmos que o único grande efeito das sanções será provocar uma fractura, e possivelmente ainda mais contra-sanções , entre os Estados Unidos e a União Europeia. Fica claro que estas sanções vão ter efeito nulo sobre a Rússia e não creio que alguém pense a sério que os russos mudem o que quer que seja nas suas políticas. Porém, todos os senadores excepto Paul e Sanders votaram a favor. Será que faz sentido?

Vamos tentar perceber o que se passa.

Primeiro, vamos lembrar que qualquer político norte-americano, desde as municípalidades até ao Congresso, todos os senadores só pensam numa coisa quando votam — o que ganho eu com isso? — A última coisa que preocupa um senador americano é as consequências do seu voto na vida real. Isso quer dizer que para conseguir uma quase unanimidade (98%) numa votação realmente estúpida tinha de haver um lobby muito influente que utilizou "argumentos" muito fortes para conseguir tal voto. Lembremos que os Republicanos no Senado sabiam que estavam a votar contra a vontade do seu Presidente. E no entanto todos à excepção de Rand Paul votaram essas sanções, isso mostra o poder do lobby que os pressionou. Assim, quem teria esse poder?

O site "Business Pundit Expert Driven" felizmente postou um artigo que indica os dez lobbies mais poderosos em Washington D.C. São eles (na mesma ordem do artigo original):

Lobby técnico
Indústria mineira
Indústria da defesa
Indústria do agronegócio
Petróleo
Lobby financeiro
Grandes farmacêuticas
AARP (American Association of Retired Persons)
Lobby pró-Israel
NRA (National Rifle Association)

Ok, por que não? Podemos talvez reordená-los, dar-lhe nomes diferentes, juntar mais alguns (como, Complexo Industrial de Prisões" ou "Comunidade da inteligência", mas na generalidade a lista está bem.

É preciso entender que a maioria destes lobbies precisa de um inimigo para prosperar, será sem duvida o caso do Complexo Militar Industrial e a industria associada de alta tecnologia, e poderíamos pensar que o Petróleo, Minas e Agronegócio vêem na Rússia um competidor potencial. Mas um olhar mais atento aos interesses que estes lobbies representam diz-nos que estão mais interessados na política caseira e que a longínqua Rússia com a sua economia relativamente pequena não é o que lhes importa. O mesmo se passa com as Grandes Farmacêuticas, a AARP e o NRA. O que deixa o lobby de Israel como o único candidato potencial.

"Lobby de Israel claro que é um nome inadequado. O lobby de Israel tem muito pouco interesse em Israel como país, ou sequer o povo israelense. Melhor seria chamar-lhe Lobby Neocon. Aliás, temos de verificar que o Lobby Neocon não está na lista acima referida. Por um lado, não representa os interesses dos Estados Unidos. Por outro, não representa os interesses de Israel. Representa antes os interesses de um grupo específico das elites reinantes dos Estados Unidos, na realidade muito inferior a 1% da população, em que todos partilham uma ideologia comum de dominação mundial típica dos neocons.

São os sujeitos que apesar do seu férreo controlo de cem por cento da media e do Congresso perderam a eleição presidencial para Donald Trump e que estão apostadas no seu impeachment. São indivíduos que simplesmente usam a Rússia, como um fulcro propagandístico para passar a noção de que Trump e o seu meio são agentes russos e o próprio Trump é uma espécie de "candidato presidencial da Manchúria".

Lembremo-nos que o registo histórico mostra que apesar de os neocons serem especialmente motivados não são muito inteligentes. Sim, eles têm a espécie de determinação ideológica raivosa que lhes permite conseguir alcançar uma influencia totalmente desproporcional sobre as politicas dos EUA, mas quando vemos o que realmente escrevem e ouvimos o que dizem, percebe-se de imediato que são indivíduos medíocres com uma mentalidade paroquiana que os torna tanto muito previsíveis como muito irritantes para as pessoas em torno deles. Ultrapassam sempre os seus limites e acabam estupefactos e horrorizados quando todas as suas conspirações e planos desmoronam sobre si.

Creio que é exactamente o que está a acontecer agora.

Primeiro, os neocons perderam as eleições. Para eles foi um choque e um pesadelo. Os "deploráveis" votaram contra as instruções de propaganda, totalmente claras que os media lhes deram. Segundo, os neocons voltaram a sua fúria contra Trump e conseguiram neutralizá-lo, mas só ao custo de enfraquecerem terrivelmente os próprios Estados Unidos! Recapitulemos: em 6 meses de administração Trump os EUA já conseguiram ameaçar directamente o Irão, a Síria, a RDPC e em todos os casos com resultados zero. Pior, o comportamento de Trump para com a Europa e a propaganda anti-Trump dentro da Europa colocaram agora a UE e os EUA numa rota colisão. É espantoso: para a Rússia as tensões actuais entre os EUA e a União Europeia são um sonho realizado e nem sequer fizeram nada para isso — tudo foi feito através da estupidez auto-derrotante dos americanos que criaram esta situação completamente ex nihilo!

Assim enquanto Kim Jong-un lança mísseis no 4 de Julho, o Exército Sírio aproxima-se de Deir ez-Zor, a Ucrânia transforma-se numa Somália, a economia russa volta a crescer e a popularidade de Putin está cada vez mais alta, os neocons estão a ficar totalmente fora de si e, como é típico das pessoas que perdem o controle, não fazem nada com lógica e sim o habitual: esbofetear sanções (mesmo que sejam totalmente ineficazes) e enviar mensagens (mesmo que sejam totalmente ignoradas). Por outras palavras os neocons empenham-se agora em pensamento mágico, optam por iludirem-se acerca do seu poder e influencia e estão a enfrentar o seu fracasso generalizado (full-spectrum) ao pretenderem que os seus votos no Congresso importam. A verdade é que não são.

É aqui que temos de examinar a outra noção errada neste caso, que a reacção russa a estas sanções mais recentes é realmente acerca delas. Não é.

Primeiro, derrubemos o mito de que tais sanções estão a prejudicar a Rússia. Na verdade não estão. Mesmo os da Bloomsberg, 100% russofóbicos começam a perceber que na realidade estas sanções tornaram Putin e a Rússia mais fortes . Segundo, há a questão do tempo: ao invés de reagir com contra-sanções os russos subitamente decidiram reduzir a quantidade de pessoal diplomático norte americano na Rússia e confiscar duas instalações diplomáticas dos EUA numa retaliação clara à expulsão dos diplomatas russos e a ocupação de edifícios diplomáticos por Obama no ano passado. Por que não?

Muitos observadores dizem que os russos são "ingénuos" em relação ao Ocidente e aos EUA, que Putin "deseja" melhores relações e que essa esperança o paralisou. Outros dizem que Putin é "fraco" ou está mesmo "em conluio" com o Ocidente. É um absurdo total.

As pessoas tendem a esquecer que Putin foi um oficial superior dos serviços de inteligência externa do KGB, o chamado "Primeiro Directorado Principal (PGU). Além disso, Putin revelou recentemente que trabalhou na altamente secreta Direcção S do PGU e que era responsável por contactos com uma rede de espiões soviéticos ilegais na Alemanha Oriental (onde Putin actuava sob a cobertura oficial de director Casa da Amizade URSS-RDA). Se o PGU era a "elite da elite" do KGB da sua parte mais secreta, então o Directorado S era a "elite da elite" do PGU e o seu cerne mais secreto. Isto, definitivamente, não é uma carreira para "ingénuos" ou "fracos", para dizê-lo suavemente. E acima de tudo, os oficiais do PGU eram "especialistas no Ocidente" em geral e nos Estados Unidos em especial porque os EUA, eram sempre considerados como o "inimigo principal" (ainda que a maior parte dos responsáveis do PGU considerasse que os britânicos eram o seu adversário mais capaz, perigoso e sorrateiro). Considerando o nível soberbo de educação e treino dado a estes oficiais, diria que os oficiais do PGU estavam entre os melhores especialistas do Ocidente de qualquer parte do mundo. A sua sobrevivência e a sobrevivência dos seus colegas dependia da sua compreensão correcta do mundo ocidental. Quanto a Putin, pessoalmente, sempre actuou de um modo muito deliberado e calculado e não há razão para pensar que desta vez, após as ultimas sanções dos EUA, tenha havido uma erupção emocional no Kremlin. Podem ter a certeza de que esta ultima reacção russa é o resultado de uma conclusão cuidadosa e a formulação de um objectivo preciso e há muito delineado.

Diria que a chave para a compreensão correcta da resposta russa está no facto de as ultimas sanções dos Estados Unidos conterem uma ideia sem procedentes e, francamente, com características chocantes: as novas medidas retiraram ao Presidente autoridade para revogar as sanções. Em termos práticos: se Trump quisesse por em vigor algumas dessas sanções, teria de enviar uma mensagem oficial ao Congresso o qual teria então trinta dias para aprovar ou rejeitar a acção proposta. Por outras palavras, o Congresso agora sequestrou o poder da Presidência para dirigir a politica externa e encarregou-se até da micro-administração da politica externa norte americana.

Isso, meus amigos, é claramente um golpe de estado constitucional e uma grave violação dos princípios da separação de poderes que é o cerne do sistema político dos Estados Unidos.

É também um testemunho vivo da total depravação do Congresso dos EUA que não tomou essas medidas quando o presidente "ultrapassou o Congresso e começou guerras sem a necessária autoridade congressual, mas que agora toma abertamente as rédeas da politica externa americana para impedir o risco de "quebrar a paz" entre a Rússia e os Estados Unidos.

E a reacção de Trump?

Ele declarou que a assinaria a lei. [NR]

Sim, o homem quer por a sua assinatura no texto que representa um golpe de estado ilegal contra a sua própria autoridade e contra a Constituição que jurou defender.

Atenta a isso, a reacção russa é muito simples e compreensível: eles desistiram de Trump.

Não que tivessem muita fé nele, mas sempre sentiram fortemente que a eleição de Trump talvez pudesse dar ao mundo uma oportunidade realmente histórica para mudar a dinâmica desastrosa iniciada pelos neocons no tempo de Obama e talvez devolver às relações internacionais uma aparência de sanidade. Infelizmente, isto não aconteceu. Trump revelou-se uma massa demasiado cozida cujo único feito real era exprimir suas ideias em 140 caracteres ou menos. Mas na coisa crucial, vital, em que Trump precisava absolutamente de ter êxito — esmagar impiedosamente os neocons — ele fracassou totalmente. Pior: a sua única reacção às múltiplas tentativas deles para derrubá-lo foram todas as vezes respondidas com toscas tentativas tontas de apaziguamento.

Para a Rússia isso significa que o presidente Trump foi agora substituído pelo "Congresso Presidente".

Uma vez que é absolutamente impossível fazer qualquer coisa com este Congresso, os russos vão agora empenhar-se em medidas unilaterais vantajosas tais como reduzir dramaticamente o número de diplomatas americanos na Rússia. Para o Kremlin, essas sanções são não tanto uma provocação inaceitável mas sim um pretexto ideal para iniciar uma série de politicas internas russas. Livrarem-se dos empregados americanos na Rússia é apenas um primeiro passo.

A seguir, a Rússia utilizará o comportamento francamente errático dos americanos para proclamar urbi et orbi que estes são irresponsáveis, incapazes de tomarem decisões adultas e basicamente que "foram à pesca". Os russos já fizeram isso quando declararam a dupla Obama-Kerry como недого ворос пособны (nedogovorosposobny: "incapazes de acordos", mais aqui acerca deste conceito). Agora com Trump a assinar a sua própria demissão constitucional, com Tillerson incapaz de calar Nikki nas Nações Unidas e com Mattis e McMaster a lutarem por planos grandiosos para parar a "não vitória" no Afeganistão, a dupla Obama-Kerry começa a parecer quase adulta.

Francamente, para os russos é o momento de ir embora.

Prevejo que os loucos neocons não vão parar até conseguir o impeachment de Trump. Além disso, prevejo que os Estados Unidos não lançarão quaisquer intervenções armadas importantes (até porque os Estados Unidos já não têm países que possam atacar com segurança e com facilmente). Algumas "intervenções pretendidas" (como o malfadado ataque de mísseis na Síria) podem ser bastante possíveis e mesmo prováveis. Este golpe interno em câmara lenta contra Trump irá absorver a maior parte da energia para os realizar e deixar a politica externa como simplesmente uma espécie de subproduto da política interna dos Estados Unidos.

Os europeus do leste estão agora totalmente entalados. Vão continuar a observar incrédulos o desastre crescente da Ucrânia enquanto fazem jogos estúpidos pretendendo serem duros com a Rússia (o último exemplo desta espécie de "ladrar atrás da cerca" pôde ser visto no patético encerramento do espaço aéreo da Roménia a um avião civil que transportava o vice primeiro ministro russo Dmitri Rogozin entre os passageiros). Os europeus reais (do ocidente) gradualmente cairão em si e começarão a fazer negócios com a Rússia. Mesmo Emanuel Macron de Rothschild, da França, provavelmente se demonstrará como um parceiro mais adulto do que o Donald.

Mas a verdadeira acção estará alhures — no Sul, no Leste e no Extremo Oriente. A verdade simples é que o mundo simplesmente não pode ficar à espera de que os americanos recuperem o juízo. Há uma série de assuntos cruciais que precisam de ser urgentemente enfrentados, uma série de imensos projectos que precisam ser realizada e um mundo muito diferente e multi-polar que precisa ser fortalecido. Se os americanos querem recusar-se a salvarem-se disto tudo, se querem deitar abaixo a ordem constitucional que os Pais Fundadores criaram e se querem funcionar apenas no reino do ilusório que nada tem a ver com a realidade — estão no seu direito e é o seu problema.

Washington DC começa a parecer um jardim-de-infância sob o efeito de LSD — algo engraçado e desagradável. Os garotos não parecem muito espertos: uma mistura de valentões e idiotas invertebrados. Alguns deles têm os dedos no botão nuclear e isso é absolutamente assustador. O que os adultos têm de fazer agora é descobrir uma maneira de manter os garotos ocupados e distraídos e distraí-los para que não apertem o maldito botão sem querer. E esperar. Esperar pela reacção inevitável de um país que é muito melhor e mais forte que os seus governantes e que agora precisa desesperadamente de um verdadeiro patriota para acabar com as Feiticeiras de Sabbath em Washington DC.

Vou encerrar esta coluna com uma nota pessoal. Acabei de atravessar os Estados Unidos, literalmente, do Rio Rogue no Oregon à costa leste da Florida. Durante essa longa viagem vi não só paisagens de tirar o fôlego mas também belas pessoas que se opõem ao baile satânico em DC com todas as fibras do seu ser e que querem o seu pais livre dos degenerados poderes demoníacos que se apossaram do Governo Federal. Vivi um total de 20 anos nos EUA e aprendi a amar e apreciar profundamente as muitas pessoas boas, decentes e honradas que aqui vivem. Longe de ver o povo americano como inimigo da Rússia, vejo-o como aliado natural, ainda que seja por termos o mesmo inimigo (os neocons em DC) e nenhuma razão objectiva para conflitos, nenhuma de qualquer espécie. De resto, americanos e russos são muito semelhantes, por vezes de um modo cómico. Tal como durante a Guerra-Fria nunca perdi a esperança no povo russo, agora recuso-me a perder a esperança no povo americano. Sim, o governo federal americano é desgostante, mau, nojento, estúpido, degenerado e absolutamente satânico, mas o povo dos Estados Unidos não é. Longe disso. Não sei se este país conseguirá sobreviver a este regime como EUA unitário ou se vai romper-se em várias entidades diferentes (algo que acho muito possível), mas creio que o povo americano sobreviverá e vencerá tal como o povo russo sobreviveu aos horrores das décadas de 1980 e 1990.

Neste momento os Estados Unidos parecem despenhar-se num precipício muito semelhante àquele em que mergulhou a Ucrânia (aliás não é surpreendente, as mesmas pessoas infligem os mesmos desastre em quaisquer países que infectem com a sua presença). A grande diferença é que o seu imenso e inexplorado potencial irá recuperá-lo. Poderá não ser uma Ucrânia em dez anos, mas será definitivamente um país norte-americano, talvez diferente do único actual ou talvez mesmo com vários estados sucessores derivados.

Mas por enquanto, só posso repetir o que os habitantes da Florida dizem quando um furacão se abate sobre eles "aferrem-se ao chão" e preparem-se para os tempos difíceis e perigosos que estão para vir.
31/Julho/2017 
 
[NR] A lei das sanções contra a Rússia, Irão e Coreia do Norte foi assinada em 02/Agosto/2017.

O original encontra-se em thesaker.is/sanctions-smoke.and-mirrors-from-a-kindergarten-on-lsd/ .
Tradução de MA, revisão de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Divergências no seio do campo anti-imperialista

por Thierry Meyssan

 Quando o seu país foi atacado pelos jiadistas, em 2011, o Presidente Bachar al-Assad reagiu a contra-corrente: em vez de reforçar os poderes dos serviços de segurança, ele diminuiu-os. Seis anos mais tarde, o seu país está em vias de sair vencedor da mais importante guerra desde a do Vietname. O mesmo tipo de ataque está em vias de se produzir na América Latina, onde suscita uma resposta muito mais dentro do habitual. Thierry Meyssan expõe aqui a diferença de análise e estratégia dos Presidentes Assad por um lado, Maduro e Morales pelo outro. Não se trata de colocar esses líderes em compita, mas de apelar a cada um deles para extrair lições políticas e tomar em boa conta a experiência das últimas guerras.

 Em Maio de 2017, Thierry Meyssan explicava na Russia Today em que é que as elites sul-americanas se enganam quanto ao imperialismo dos EUA. Ele insistia acerca da mudança de paradigma dos conflitos armados actuais e a necessidade de repensar, radicalmente, a maneira de defender a pátria.


A operação de desestabilização da Venezuela prossegue. Numa primeira fase, grupúsculos violentos, manifestando-se contra o governo, mataram transeuntes, ou seja cidadãos que se tinham juntado a eles. Num segundo tempo, os grandes distribuidores de géneros alimentares montaram uma rotura de abastecimentos nos supermercados. Depois, alguns membros das forças da ordem atacaram dois ministérios, apelaram à rebelião e entraram na clandestinidade.

A imprensa internacional não cessa de atribuir ao «regime» os mortos das manifestações enquanto que numerosos vídeos atestam que eles foram deliberadamente assassinados pelos próprios manifestantes. Com base nestas falsas informações, ela qualifica o Presidente Nicolas Maduro de «ditador» como já o havia feito, seis anos atrás, vis-à-vis a Mouamar Kadhaffi e a Bachar al-Assad.

Os Estados Unidos utilizaram a Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o Presidente Maduro da mesma maneira como usaram anteriormente a Liga Árabe contra o Presidente al-Assad. Caracas, sem esperar ser excluída da Organização denunciou tal método e abandonou-a ela própria.

No entretanto o governo Maduro apresenta duas falhas no seu activo:
- uma grande parte dos seus eleitores não se deslocou às urnas aquando das eleições legislativas de Dezembro de 2015, deixando a oposição arrecadar a maioria no Parlamento.
- deixou-se surpreender pela crise dos géneros alimentícios, quando, no passado, este tipo de manobra já tinha sido montado no Chile contra Allende e na Venezuela contra Chávez. Precisou de várias semanas para montar novos circuitos de aprovisionamento.

Com toda a probabilidade, o conflito que começa na Venezuela não irá parar nas suas fronteiras. Ele abrasará todo o Noroeste do continente sul-americano e as Caraíbas.

Um passo suplementar foi franqueado com preparativos militares contra a Venezuela, a Bolívia e o Equador, a partir do México, da Colômbia e da Guiana Inglesa. Esta coordenação é operada pela equipe do antigo Gabinete Estratégico para a Democracia Global (Office of Global Democracy Strategy); uma unidade criada pelo Presidente Bill Clinton, depois prosseguida pelo Vice-presidente Dick Cheney e pela sua filha Liz. A existência deste foi confirmada por Mike Pompeo, o actual director da CIA. O que levou, portanto, à menção na imprensa pelo presidente Trump da existência de uma opção militar dos Estados Unidos.

Para salvar o seu país, a equipe do Presidente Maduro recusou seguir o exemplo do Presidente al-Assad. Segunda ela, as situações são completamente diferentes. Os Estados Unidos, principal potência capitalista, atacariam a Venezuela afim de lhe roubar o seu petróleo, de acordo com um esquema muitas vezes repetido no passado, em três continentes. Este ponto de vista acaba de ser apoiado por um discurso recente do Presidente boliviano, Evo Morales.

Lembre-mo-nos que em 2003 e 2011, o Presidente Saddam Hussein, o Guia Muammar Kadhafi e muitos conselheiros do Presidente Assad mantinham a mesma análise. Segundo eles, os Estados Unidos implicaram-se sucessivamente no Afeganistão e no Iraque, depois na Tunísia, no Egipto, na Líbia e na Síria unicamente para fazer cair os regimes que resistiam ao seu imperialismo e controlar os recursos de hidrocarbonetos do Médio-Oriente Alargado. Inúmeros autores anti-imperialistas seguem esta análise, na actualidade, por exemplo tentando explicar a guerra contra a Síria pela interrupção do projecto do gasoduto catariano.

Ora, esta análise mostrou-se errada. Os Estados Unidos não buscavam nem derrubar os governos progressistas (Líbia e Síria), nem roubar o petróleo e gás da região, mas, sim destruir os Estados, para reenviar as populações à pré-história, para a época em que «o homem era o lobo do homem».

Os derrubes de Saddam Hussein e de Muammar Gaddafi não restabelecerem a paz. As guerras continuaram apesar da instalação de um governo de ocupação no Iraque, depois governos na região incluindo colaboradores do imperialismo opostos à independência nacional. Elas continuam ainda atestando que Washington e Londres não queriam derrubar regimes, nem defender democracias, mas antes esmagar os povos. É uma constatação fundamental que altera a nossa compreensão quanto ao imperialismo contemporâneo.

Esta estratégia, radicalmente nova, foi ensinada por Thomas PM Barnett desde o 11- de-Setembro de 2001. Ela foi publicamente revelada e exposta em Março de 2003 —quer dizer precisamente antes da guerra contra o Iraque— num artigo na Esquire, depois no livro homónimo do Pentágono The Pentagon’s New Map («O Novo Mapa do Pentágono»- ndT), mas ela parece tão cruel que ninguém imaginou que pudesse vir a ser posta em acção.

Trata-se para o imperialismo de dividir o mundo em dois : de um lado uma zona estável que beneficia do sistema, do outro um caos espantoso onde ninguém pense sequer em resistir, mas unicamente em sobreviver; uma zona na qual as multinacionais possam extrair as matérias primas, das quais precisam, sem terem que dar satisfações a ninguém.

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Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais. Depois do Médio-Oriente Alargado, os estrategas dos EU preparam-se para reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina.

Desde o século XVII e a guerra civil britânica, o Ocidente desenvolveu-se entre o medo do caos. Thomas Hobbes ensinou-nos a suportar a “Razão de Estado”, em vez de arriscar reviver esse tormento. A noção de caos só nos voltou a ser trazida com Leo Strauss, após a Segunda Guerra Mundial. Este filósofo, que formou pessoalmente numerosas personalidades do Pentágono, entendia construir uma nova forma de Poder mergulhando uma parte do mundo no inferno.

A experiência do jiadismo no Médio-Oriente Alargado mostrou-nos o que é o caos.

Tendo reagido como se esperava dele aos acontecimentos de Daraa (março-abril de 2011), enviando o exército para reprimir os jiadistas da mesquita al-Omari, o Presidente al-Assad foi o primeiro a compreender aquilo que se passava. Longe de aumentar os poderes das forças de segurança para reprimir a agressão externa, ele deu ao povo os meios para defender o país.

Primeiro, levantou o estado de emergência, dissolveu os tribunais de excepção, libertou as comunicações de Internet, e proibiu às forças armadas de fazer uso das suas armas quando isso pudesse colocar em risco inocentes.

Estas decisões contra-a-corrente implicavam pesadas consequências. Por exemplo, aquando do ataque a um comboio militar em Banias, os soldados abstiveram-se de usar as suas armas em legítima defesa. Arriscaram ser mutilados pelas bombas dos atacantes, e até morrer, mais do que atirar, pelo risco de ferir os habitantes que os viam ser massacrados sem intervir.

Como muitos, à época, eu pensei que se tratava de um Presidente fraco e de soldados demasiado leais, que a Síria ia ser esmagada. No entanto, seis anos mais tarde, Bashar al-Assad e os exércitos sírios ganharam a sua aposta. Se a princípio, os soldados lutaram sozinhos contra a agressão estrangeira, pouco a pouco, cada um dos cidadãos foi-se envolvendo, cada um em seu posto, afim de defender o país. Os que não puderam ou não quiseram resistir exilaram-se. Claro, os Sírios têm sofrido muito, mas a Síria é o único Estado no mundo, após a guerra do Vietname (Vietnã-br), a ter resistido até que o imperialismo se cansa e desiste.

Em segundo lugar, face à invasão de uma multidão de jiadistas originários de todas as comunidades muçulmanas, desde Marrocos até à China, o Presidente Assad decidiu abandonar uma parte do território para conseguir salvar o seu Povo.

O Exército Árabe Sírio recuou para a zona da “Síria útil”, quer dizer para as cidades, abandonando as zonas rurais e os desertos aos agressores. Enquanto Damasco velava, sem nenhuma falha, pelo aprovisionamento de alimentos a todas as regiões que controlava. Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, apenas houve fome nas áreas controladas pelos jiadistas e em algumas cidades sitiadas por eles; os «rebeldes estrangeiros» (perdoem o “oxímoro”), aprovisionados pelas associações «humanitárias» ocidentais, utilizaram a distribuição de pacotes de alimentos para controlar as populações que eles próprios submetiam à fome.

O povo sírio constatou por si próprio que apenas a República, e não, os Irmãos Muçulmanos e seus jiadistas, o alimentava e o protegia.

Em terceiro lugar, o Presidente Assad traçou, aquando de um discurso pronunciado a 12 de Dezembro de 2012, a maneira como ele pensava refazer a unidade política do país.

Ele indicou, nomeadamente, a necessidade de redigir uma nova constituição e de submetê-la à adopção por uma maioria qualificada do Povo, depois proceder à eleição democrática da totalidade dos responsáveis institucionais, neles incluído o Presidente, é claro.

À época, os Ocidentais fizeram troça da pretensão do Presidente Assad em convocar eleições em pleno período de guerra. Hoje em dia, todos os diplomatas envolvidos na resolução do conflito, incluindo os das Nações Unidas, apoiam o plano Assad.

Enquanto os comandos jiadistas circulavam por todo o país, nomeadamente em Damasco, e assassinavam políticos em suas casas com suas famílias, o Presidente Assad encorajava os seus opositores internos a pronunciarem-se. Ele garantiu a segurança do liberal Hassan al-Nouri e do marxista Maher al-Hajjar afim de que assumissem, também, o risco de se apresentarem à eleição presidencial de Junho de 2014. Apesar do apelo ao boicote pelos Irmãos Muçulmanos e pelos governos Ocidentais, apesar do terror jiadista, apesar da presença no exílio, no exterior, de milhões de cidadãos, 73,42% dos eleitores responderam presente.

Identicamente, desde o início da guerra, ele criou um Ministério da Reconciliação Nacional, o que jamais se vira num país em guerra. Ele confiou-o ao presidente de um partido aliado, o SSNP, de Ali Haidar. Este negociou e concluiu mais de um milhar de acordos promovendo a amnistia(anistia-br) de cidadãos que havia pegado em armas contra a República e a sua integração no seio do Exército Árabe Sírio.

Durante esta guerra, o Presidente Assad jamais usou a força contra o seu próprio Povo, por muito mal que digam aqueles que o acusam gratuitamente de torturas generalizadas. Assim, por exemplo, ele nunca estabeleceu a conscrição em massa, o recrutamento obrigatório. É sempre possível a um jovem escapar ao serviço militar. Procedimentos administrativos permitem a qualquer cidadão do sexo masculino escapar ao serviço nacional se ele não quiser defender o seu país de armas na mão. Apenas os exilados, que não tiveram a oportunidade de proceder a estas “démarches” podem estar em contravenção das leis.

Durante seis anos, o Presidente Assad não parou de, por um lado, apelar ao seu povo, de lhe conferir responsabilidades e, por outro, de tentar alimentá-lo e protegê-lo tanto quanto podia. Ele assumiu sempre o risco de dar antes de receber. É por isso que, hoje em dia, ele ganhou a confiança do seu Povo e pode contar com o apoio activo.

As elites sul-americanas enganam-se quando continuam a luta das décadas precedentes por uma mais justa distribuição das riquezas. A luta principal não é mais entre a maioria do povo e uma pequena classe de privilegiados. A escolha que se colocou aos povos do Médio-Oriente Alargado e à qual os Sul-americanos terão que responder, por sua vez, é a de defender a Pátria ou morrer.

Os factos provam-no: o imperialismo contemporâneo não visa mais, em especial, meter a mão nos recursos naturais. Ele domina o mundo e pilha sem escrúpulos. Agora, o que ele pretende, também, é esmagar os Povos e destruir as sociedades das regiões nas quais explora já os recursos.

Nesta era de destruição, apenas a estratégia de Assad permite ficar de pé e livre.
 
Tradução
Alva

aqui:http://www.voltairenet.org/article197501.html

domingo, 13 de agosto de 2017

Venezuela: Rupturas na narrativa


por Thierry Deronne
 
Em 2 de agosto pouco depois de uma forte mobilização cidadã que se manifestou pela eleição da Assembleia Constituinte, os venezuelanos puderam ver na Globovision (uma das televisões privadas maioritárias do país) Henry Ramos Allup, um dos mais beligerantes líderes da oposição declarar: "decidimos participar nas eleições regionais, na dos presidentes de câmara e nas presidenciais". [1] Um sector importante da direita demarca-se assim publicamente das violências da extrema-direita de Leopoldo Lopez e admite publicamente a validade do Centro Nacional Eleitoral (CNE), que até à pouco denegria como instrumento chavista. Legitimar o retorno à via democrática preconizado pelo presidente Maduro? A "história contada" a toda a hora, destilada todos os dias, por todos os meios e que em consequência a quase totalidade dos cidadãos ocidentais acreditam, começa a rodar no vazio.

Quanto mais tempo passa, mais o mamute da concentração mundial dos media tem dificuldades em impedir a difusão de elementos que lhe escapam. A imagem de uma guerra civil ou de uma oposição democrática em luta contra um regime repressivo já não se mantém. Sabe-se que a maioria das vítimas foi causada pelas violências da extrema-direita [2] , que esta violência está confinada a alguns por cento do território – zonas ricas ou paramilitarizadas (municípios de direita e fronteira com a Colômbia) – que a grande maioria vive em paz e rejeita estas violências, incluindo eleitores de direita [3] . O "regime" (na realidade um governo eleito) prendeu e julgou rapidamente os membros das forças da ordem que fizeram uso de força de excessiva [4]


 
 
É preciso destruir o perigoso exemplo de uma Assembleia Constituinte. Enquanto em 4 de agosto militantes chavistas, feministas, ecologistas, militantes da cultura popular ou contra a especulação imobiliária estreiam em Caracas os seus lugares de deputados constituintes [5] os grandes media fazem tudo para denegrir o sufrágio dos venezuelanos tornando credíveis as denúncias de "fraude" lançadas desde Londres pelo diretor da Smartmatic – uma sociedade comercial que forneceu máquinas ao Centro Nacional Eleitoral (CNE) mas que não tem acesso aos dados da votação [6] .

Os media não mencionam uma fonte bem mais séria. Após terem observado o escrutínio localmente, o Conselho dos Peritos Eleitorais da América Latina (CEELA) formado por juristas e ex-presidentes de tribunais eleitorais de vários países da América Latina concluiu que "o resultado das eleições na Venezuela é verídico e fiável". O CEELA "utilizou o mesmo sistema que utilizou em todas as eleições, incluindo as de 2015 em que a oposição obteve a maioria dos lugares na Assembleia Nacional". Este sistema eleitoral, qualificado pelo observador Jimmy Carter de "melhor do mundo" [7] permite a "a qualquer pessoa verificar que os votantes foram efetivamente os 8 089 320 anunciados pelo CNE" [8] .

Uma das consequências da velocidade emocional, da comunicação instantânea por satélite, da falta de contexto, etc que caracterizam qualquer campanha de propaganda chama-se a obrigação da média . Por um lado, milhares de órgãos de comunicação martelam-nos exatamente a mesma versão, por outro a Venezuela real permanece distante e de difícil acesso. A maioria dos cidadãos, intelectuais e ativistas é reduzida a fazer uma média forçosamente frágil entre a enorme quantidade de mentiras diárias e uma minoria com verdade. O que dá, no melhor dos casos é que "há uma luta entre blocos, há problemas de direitos humanos, há uma simetria na violência, uma guerra civil e condeno a violência venha do onde vier, etc..." E no pior, o prazer cobarde de repetir os títulos de 99% dos media sem nada saber da Venezuela, de gritar com a matilha para se sentirem poderosos, de apontar o dedo e ir caçar os "partidários do ditador". Em França sobretudo, mas também em Espanha, a Venezuela é substituída por um ecrã em branco para sessões de ajustes de contas entre correntes políticas. O problema é que a quantidade de repetição, mesmo se cria uma qualidade de opinião não faz por si uma verdade. O número de títulos ou de imagens idênticas poderia ser mil vezes mais elevado que isso não significaria que nos falassem do real.

Como, portanto, voltar a conectar-se ao real? Quando o Movimento dos Sem Terra no Brasil, o conjunto dos movimentos sociais [9] , os principais partidos de esquerda da América Latina [10] ou as 28 organizações venezuelanas de direitos humanos [11] denunciam a violenta desestabilização da democracia venezuelana e apoiam a mobilização dos cidadãos para eleger uma Assembleia Constituinte, dispõe-se então de um vasto leque de conhecimentos mais profundos da realidade provenientes de organizações democráticas, que a uma "ciência-política" europeia "média" obrigada a preservar um mínimo de "respeitabilidade" nos media para proteger a sua carreira.

Para não deixar assassinar Salvador Allende de novo e não agredir os que rejeitam a febre da propaganda, que se descobrirá amanhã que tinham razão sobre a Venezuela, a sociedade ocidental necessita de uma democratização radical dos meios de comunicação social – o desenvolvimento do pluralismo de informação em França é obrigação legal do CSA [12] e paralelamente a criação e multiplicação de meios de comunicação fora da esfera privada quer sejam públicos quer associativos, criar novas escolas onde sejam restabelecidos como fatores centrais de um jornalismo ao serviço dos cidadãos: o tempo de investigação, a aquisição de cultura histórica, a possibilidade de viajar aos locais [13] e escutar um sector tão vivo como o dos movimentos sociais.

Caracas, 4 de agosto 2017 

Fotos (Invisíveis nos nossos media): Assembleia Constituinte a instalar-se no Congresso em Caracas, 4 de agosto.

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Notas
1 – Ver entrevista completa na televisão privada Globovision: www.youtube.com/watch?v=9unGt_pSCnM . Na Venezuela a maioria dos media, como a economia em geral são privados e opõem-se às políticas sociais do governo. Ler Thomas Cluzel ou l'interdiction d'informer sur France Culture
2 – Para um gráfico e um quadro exato e completo das vítimas, dos sectores sociais, dos responsáveis e pessoas condenadas, ver venezuelanalysis.com/analysis/13081 ; Sobre os assassinatos racistas da direita: Sous les Tropiques, les apprentis de l'Etat Islamique , 27 juillet 2017; Le Venezuela est attaqué parce que pour lui aussi "la vie des Noirs compte" (Truth Out) 24 de julho de 2017
3 – Sobre as sondagens da firma privada Hinterlaces: Nouveaux sondages surprises au Venezuela (juillet 2017)
4 – Sobre prisões de membros das forças da ordem, ver Direitos Humanos na Venezuela, dois pesos e duas medidas. venezuelanalysis.com/analysis/13081 E um quadro completo da situação em venezuelanalysis.com/analysis/13081
5 – Sobre a mobilização popular para eleger a Constituinte: venezuelainfos.wordpress.com/... pode-se ler entre outros: Quels sont les enjeux du vote du 30 juillet pour l'Assemblée Nationale Constituante ? 28 juillet 2017, De qui ont peur les Etats-Unis et la droite mondiale? 28 juillet 2017, Génération "chaviste rebelle": les visages et les voix des candidat(e)s député(e)s à la Constituante, par Angele Savino (L'Huma) 27 de julho de 2017
6 – Ver "O CNE rejeita as alegações de fraude" www.cne.gob.ve/web/sala_prensa/noticia_detallada.php?id=3554
7 – Former US President Carter : Venezuelan Electoral System "Best in the World" ",
venezuelanalysis.com/news/7272
8 – Informações dadas em conferência de imprensa da CEELA e retomadas por El Universal (jornal da oposição) www.eluniversal.com/...
9 – Reunião de movimentos sociais do Brasil com lista de assinaturas: baraodeitarare.org.br/...
10 – Les partis de gauche et les mouvements sociaux d'Amérique Latine appuient un peuple qui écrit sa constitution à la barbe de l'Empire. 21 de julho de 2017
11 – 28 organisations des droits humains demandent le respect du droit au suffrage pour l'Assemblée Constituante 29 de julho de 2017
12 – Com efeito, segundo a lei, uma das obrigações do Conseil Supérieur de l'Audiovisuel (CSA), as obrigações da lei francesa n° 86-1067 de 30 setembro 1986, modificada e completada relativa à liberdade de comunicação (e que se gostaria de ver aplicada) diz: Artigo 29: o CSA vela para que uma parte suficiente dos recursos em frequência seja atribuída aos serviços editados por uma associação e realizando uma missão de comunicação social de proximidade, entendida como para favorecer as trocas entre grupos sociais e culturais de expressão das diferentes correntes socioculturais, a manutenção do desenvolvimento da proteção do ambiente ou a luta contra a exclusão.
13 – A entrada em força dos grandes acionistas privados no campo mediático levou a cortes nos orçamentos e por consequência à supressão de correspondentes estrangeiros e ao aumento da dependência de agências como a AFP, Reuters ou EFE. Ora estas recentemente procederam ao blanchi le terrorisme d'extrême droite en le relookant comme un "combat pour la liberté" (Reuters) ou fizeram passar les photos d'électeurs chavistes pour des électeurs de droite (EFE) .


O original encontra-se em www.legrandsoir.info/venezuela-ruptures-du-storytelling.html .
Tradução de DVC.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sábado, 12 de agosto de 2017

O chamamento da guerra nuclear


por John Pilger
 
O comandante do submarino dos EUA diz: "Todos nós vamos morrer um dia, alguns mais cedo e outros mais tarde. O perturbador sempre foi que nunca se está pronto para isso, pois não se sabe quando é que chega o momento. Bem, agora sabemos e não há nada a fazer".

Ele diz que estará morto em Setembro. Levará cerca de uma semana para morrer, embora ninguém possa estar muito certo. Os animais viverão mais.

A guerra acabou em um mês. Os Estados Unidos, a Rússia e a China foram os protagonistas. Não está claro se foi começada por acidente ou por erro. Não houve vitorioso. O hemisfério norte está contaminado e agora sem vida.

Uma cortina de radioactividade está a mover-se rumo à Austrália e Nova Zelândia, ao sul da África e à América do Sul. Em Setembro, as últimas cidades e aldeias sucumbirão. Tal como no norte, a maior parte dos edifícios permanecerão intactos, alguns iluminados pelos últimos vislumbres de luz eléctrica.

Este é o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro


Estas linhas do poema de T.S. Eliot, The Hollow Men (Os homens vazios), surgem no início do romance On the Beach (Na praia) de Nevil Shute, o qual me deixou próximo às lágrimas. Os endossos impressos na capa diziam o mesmo.

Publicado em 1957 na altura da Guerra Fria, quando tantos escritores estavam silenciosos ou acovardados, é uma obra-prima. A princípio a linguagem sugere uma relíquia refinada; mas nada do que li sobre guerra nuclear é tão implacável como a sua advertência. Nenhum outro livro é tão urgente.

Alguns leitores recordarão o filme a branco e preto de Hollywood estrelado por Gregory Peck como comandante da US Navy que leva seu submarino para a Austrália a fim de aguardar o espectro silencioso e informe descer sobre o último ser vivo do mundo.

Li On the Beach pela primeira vez há poucos dias, terminando-o quando o Congresso dos EUA aprovou uma lei para travar guerra económica à Rússia, a segunda mais letal potência nuclear do mundo. Não havia justificação para esta votação insana, excepto a ânsia da pilhagem.

As "sanções" também se destinam à Europa, principalmente à Alemanha, a qual depende do gás natural russo, e a companhias europeias que fazem negócios legítimos com a Rússia. Naquilo que passou por debate no Capitol Hill, o mais palrador dos senadores não deixou dúvida de que o embargo se destinava a forçar a Europa a importar o dispendioso gás americano.

Seu objectivo principal parece ser a guerra – a guerra real. Nenhuma provocação tão extrema pode sugerir qualquer outra coisa. Eles parecem almejar isto, muito embora os americanos tenham pouca ideia do que é a guerra. A Guerra Civil de 1861-65 foi a última no seu território. Guerra é o que os Estados Unidos fazem aos outros.

O único país a ter utilizado armas nucleares contra seres humanos. Desde então eles destruíram grande número de governos, muitos deles democracias, e destruíram sociedades inteiras – os milhões de mortos no Iraque foram um fracção da carnificina na Indochina, a qual o presidente Reagan chamou de "nobre causa" e o presidente Obama corrigiu como a tragédia de um "povo excepcional". Ele não estava a referir-se aos vietnamitas.

Ao filmar no ano passado no Lincoln Memorial, em Washington, ouvi acidentalmente um guia do National Parks Service a dar uma lição a um grupo de escolares adolescentes: "Ouçam", disse ele. "Nós perdemos 58 mil jovens soldados no Vietname e eles morreram a defender a vossa liberdade".

De repente, a verdade era invertida. Nenhuma liberdade foi defendida. A liberdade foi destruída. Um país de camponeses foi invadido e milhões do seu povo foram mortos, mutilados, expulsos, envenenados, 60 mil dos invasores puseram fim à sua própria vida. Ouçam, realmente.

Uma lobotomia é executada a cada geração. Os factos são removidos. A história é expurgada e substituída pelo que a revista Time chama "um eterno presente". Harold Pinter descreveu isto como "manipulação de poder à escala mundial, mascarando-se como uma força para o bem universal, um brilhante, mesmo brilhante, acto de hipnose com grande êxito [o que quer dizer] que nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto estava a acontecer não estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse".

Aqueles que se auto-denominam liberais ou tendenciosamente "a esquerda" são participantes ávidos desta manipulação e desta lavagem cerebral, a qual hoje reverte a um nome: Trump.

Trump é louco, um fascista, um tolo da Rússia. Ele também é uma prenda para "cérebros liberais conservados no formaldeído da política de identidade", escreveu Luciana Bohne de modo inesquecível. A obsessão com Trump como homem – não Trump como um sintoma e uma caricatura de um sistema duradouro – atrai grande perigo para todos nós.

Enquanto prosseguem suas fossilizadas agendas anti-russas, media narcisistas tais como o Washington Post, a BBC e o Guardian omitem a essência da mais importante narrativa política do nosso tempo pois fomentam a guerra numa escala de que não posso recordar-me ao longo da minha vida.

Em 3 de Agosto, em contraste com a extensão que o Guardian tem dado à idiotice de que os russos conspiraram com Trump (o que recorda a difamação da extrema-direita de John Kennedy como "agente soviético"), o jornal enterrou, na página 16, a notícia de que o presidente dos Estados Unidos fora forçado a assinar uma lei do Congresso declarando guerra económica à Rússia. Ao contrário de todas as outras assinaturas de Trump, esta foi efectuada em segredo virtual e acrescentada com uma advertência do próprio Trump de que era "claramente inconstitucional".

Está a caminho um golpe contra o homem na Casa Branca. Não por ele ser um ser humano odioso, mas sim porque firmemente deixou claro que não quer guerra com a Rússia.

Este vislumbre de sanidade, ou de simples pragmatismo, é anátema para os administradores da "segurança nacional" que defendem um sistema baseado na guerra, vigilância, armamentos, ameaça e capitalismo extremo. Martin Luther King chamou-os "os maiores fornecedores de violência no mundo de hoje".

Eles cercaram a Rússia e a China com mísseis e um arsenal nuclear. Eles utilizaram neo-nazis para instalar um regime instável e agressivo na fronteira da Rússia – o caminho pelo qual Hitler invadiu, provocando as mortes de 27 milhões de pessoas. O seu objectivo é desmembrar a moderna Federação Russa.

Em resposta, "parceria" é uma palavra usada incessantemente por Vladimir Putin – qualquer coisa, parece, que possa travar nos Estados Unidos um impulso evangélico para a guerra. A incredulidade na Rússia pode agora ter-se transformado em medo e talvez uma certa resolução. Os russos quase certamente têm contra-ataques nucleares preparados. Ensaios de ataques aéreos não são incomuns. A sua história diz-lhes para estarem preparados.

Protestos contra o Talisman Sabre. A ameaça é simultânea. A Rússia é a primeira. A China é a seguir. Os EUA acabam de completar um enorme exercício militar com a Austrália conhecido como Talisman Sabre . Eles treinaram um bloqueio dos Estreitos de Malaca e do Mar do Sul da China, através dos quais passam as linha económicas vitais da China.

O almirante a comandar a frota estado-unidense do Pacífico disse que, "se necessário", ele atacaria a China com armas nucleares. Que ele dissesse tal coisa publicamente na actual atmosfera pérfida começa a tornar facto a ficção de Nevil Shute.

Nada disto é considerado notícia. Nenhuma ligação é feita quando se recorda o festim sangrento de Passchendaele um século atrás. A reportagem honesta já não é bem vinda na maior parte dos media. Pessoas enfatuadas, conhecidas como sabichonas, dominam: editores são administradores de info-entretenimento ou da linha do partido. Onde outrora havia edição, há agora o despejar de clichés para trituração. Aqueles jornalistas que não cumprem são defenestrados.

A urgência tem muitos antecedentes. No meu filme, The Coming War on China (A guerra vindoura à China), John Bordne, membro da equipe de combate de mísseis da US Air Force baseada em Okinawa, Japão, descreve como em 1962 – durante a crise cubana dos mísseis – foi dito a ele e aos seus colegas "para lançar todos os mísseis" a partir dos seus silos.

Armados com o nuclear, os mísseis destinavam-se tanto à China como à Rússia. Um oficial júnior questionou isto e a ordem acabou por ser revogada – mas só depois de terem sido emitidas com revólveres apontados e ordem para atirar numa equipe de míssil se eles não cumprissem.

Na altura da Guerra Fria, a histeria anti-comunista nos Estados Unidos era tal que responsáveis estado-unidenses que foram à China em negócios oficiais foram acusados de traição e despedidos. Em 1957 – o ano em que Shute escreveu On the Beach – nenhum responsável no Departamento de Estado podia falar a língua do país mais populoso do mundo. Falantes de mandariam eram expurgados sob restrições agora reflectidas na lei que o Congresso acabou de aprovar, destinada à Rússia.

A lei foi bipartidária. Não há diferença fundamental entre Democratas e Republicanos. Os termos "esquerda" e "direita" são sem significado. A maior parte das guerras modernas da América foram iniciadas não por conservadores mas sim por liberais democratas.

Quando Obama terminou o seu mandato havia presidido um recorde de sete guerras, incluindo a mais longa guerra da América, e uma campanha sem precedentes de mortes extrajudiciais – assassinatos – através de drones.

OBAMA: TRÊS BOMBAS POR HORA, 24 HORAS POR DIA

No seu último ano de mandato, segundo um estudo do Council on Foreign Relations, o "relutante guerreiro liberal", lançou 26.171 bombas – três bombas por hora, 24 horas por dia. Tendo prometido ajudar a "livrar o mundo" de armas nucleares, o laureado com o Prémio Nobel da Paz construiu mais ogivas nucleares do que qualquer outro presidente desde a Guerra Fria.

Trump é um fraco em comparação. Foi Obama – com a sua secretária de Estado Hillary Clinton ao lado – quem destruiu a Líbia como estado moderno e lançou a debandada humana para a Europa. Internamente, grupos de imigração conhecem-no como o "deportador em chefe".

Um dos últimos actos de Obama como presidente foi assinar uma lei que entrega um recorde de US$618 mil milhões ao Pentágono, reflectindo a ascendência crescente do militarismo fascista na governação dos Estados Unidos. Trump endossou isto.

Enterrado nos pormenores estava o estabelecimento de um "Centro para Análise de Informação e Resposta". Isto é um ministério da verdade. A sua tarefa é providenciar uma "narrativa oficial dos factos" que nos preparará para a possibilidade real da guerra nuclear – se nós o permitirmos.
04/Agosto/2017 
 
O original encontra-se em johnpilger.com/articles/on-the-beach-2017-the-beckoning-of-nuclear-war e em www.globalresearch.ca/on-the-beach-2017/5602709

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os média e os ursos polares


Comentando um estudo científico, Os ataques dos ursos polares contra humanos: implicações das alterações climáticas [1], os média (mídia-br) internacionais soam o alarme: impulsionados pelo aquecimento global, os ursos polares estariam a atacar os humanos.

Ora, esse não é o sentido deste estudo que versa, na realidade, sobre o comportamento animal e não sobre as alterações climáticas [2].

Além disso, o estudo enumera o conjunto de casos de ataques a humanos por ursos polares desde há um século, tendo o mais recente ocorrido há seis anos atrás, em 2011. Mas não examina a alta exponencial de possibilidades de ocorrência de tais ataques em relação com o crescente número de humanos que frequentam agora o habitat natural dos ursos polares.

Esta campanha ocorre no contexto da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris sobre o clima, ou seja, da retirada dos EUA da Bolsa de Carbono, a qual deverá enriquecer os seus inventores. Esta bolsa foi criada por David Blood (antigo director do banco Goldman Sachs) e Al Gore (antigo Vice-presidente dos Estados Unidos). Os seus estatutos foram redigidos por Barack Obama (futuro Presidente dos Estados Unidos) [3].

Tradução
Alva

[1] «Polar bear attacks on humans: Implications of a changing climate» («Ataques de ursos polares a humanos : Implicações de um clima em mudança»- ndT), Wildlife Society Bulletin, 2 juillet 2017.
[2] «Polar bears hurt by climate change are more likely to turn to a new food source — humans» (Por exemplo : «Ursos polares atingidos pela mudança climática mais propensos a virarem-se para uma nova fonte alimentar – humanos»- ndT), Cleve R. Wootson Jr., The Washington Post, July 13, 2017.
[3] «1997-2010 : L’écologie financière», par Thierry Meyssan, Оdnako (Russie) , Réseau Voltaire, 26 avril 2010.


aqui: http://www.voltairenet.org/article197162.html

sábado, 15 de julho de 2017

Denunciar o desastre social e o vocabulário do engano (2)


por Michael Hudson
 
A distinção clássica entre rendimento merecido e não merecido

Há uma história falsa e uma história verdadeira. Raramente a história factual é a versão promovida pelos "vencedores" (ou pretensos vencedores – a luta ainda não acabou). Isto também é verdadeiro na teoria económica. Há apenas uma realidade económica, assim em princípio deve haver apenas um corpo de teoria económica: a economia da realidade. Mas interesses especiais (dos vitoriosos de hoje) promovem mistificações e decretam exclusões a fim de se auto-retratarem como heróis económicos, como se os seus ganhos predatórios fossem os da sociedade como um todo. A sua imagem auto-congratulatória caracteriza o que se passa actualmente na teoria económica dominante (mainstream economics).

Ao actuarem em favor da finança, do imobiliário e dos interesses monopolistas defendendo a desregulação e a não aplicação de impostos sobre os seus ganhos, os neoliberais sequestraram os economistas clássicos no seu templo. Eles invocam Adam Smith, enquanto desviam a atenção daquilo que ele e seus seguidores clássicos realmente disseram. Sua reescrita da história do pensamento económico trata a crítica de Smith aos rentistas e ao financiamento por dívida como heresia.

Há dois séculos atrás os economistas clássicos lutaram contra os interesses adquiridos dos rentistas que haviam sobrevivido aos códigos do direito pós-romano e aos senhores feudais subsequentes. Mas a reforma progressista foi interrompida após a Primeira Guerra Mundial. Uma reacção anti-clássica começou a emergir na Era Dourada da década de 1880 e de 1890 e ganhou força após a Primeira Guerra Mundial terminando a tendência para a socialização do capitalismo industrial (por exemplo, saúde pública e pensões, investimento público em infraestruturas e educação) e a mobilização da actividade bancária para o financiamento da indústria, que florescia sobretudo na Alemanha.

As práticas bancárias anglo-americanas emergiram como norma, em aliança com o imobiliário e os monopólios em vez da tríade antes prevista de capitalismo industrial, bancos e governo. A luta entre o que parecia serem as ondas do futuro – "socialismo de Estado" e socialismo marxista – foi posta de lado por uma economia financiarizada de rentistas. Com eles surgiu um novo conjunto de conceitos económicos e definições, cujo objectivo era amortecer a resistência ao que é agora um golpe frontal Anti-Iluminista.

Os interesses dos rentistas vitoriosos reconhecem que enquanto puderem capturar as consciências dos políticos e do público formatando a maneira como as pessoas vêem a dinâmica da economia, não há necessidade de gastar dinheiro para os subornar ou lutar contra eles. Enquanto os 1% puderem controlar o currículo educacional ensinando que estamos no fim da história e que não há alternativa (TINA), eles conseguirão privar os eleitores da capacidade de conceptualizar uma alternativa (ver "baixa cognição" abaixo). Eles promovem a ideia de que a austeridade – e a polarização económica que lhe está associada – é o destino natural da nossa época, não uma reversão do impulso de progresso da sociedade civil.

Não é necessário reinventar a roda para substituir o actual mal-estar por uma análise mais realista. O meu modelo económico visa estabelecer as bases para a criação de um formato mais realista da contabilidade do produto e do rendimento nacional, excluindo do "produto" a sobrecarga rentista. Renda é rendimento sem produto, preço "vazio" de valor. Quando este rendimento é pago ao sector FIRE (finança, seguros e imobiliário) e monopólios, isto é feito à custa de salários, lucros industriais e impostos.

Este livro é, pois, concebido como um antídoto, começando com uma renovação da linguagem usada para descrever como funciona a nossa economia (ou não funciona). Os verbetes de A a Z na secção de vocabulário ilustram esta distinção do ponto de vista histórico e político, bem como do ponto de vista metodológico.

Democracia de "baixa cognição": o nosso oximoro político mais recente

Quando eu era estudante universitário, na década de 1950, a abordagem de Sapir-Whorf à linguística era o padrão. Benjamin Lee Whorf descreveu como o vocabulário e a semântica da linguagem modelam a forma como os oradores conceptualizam o Mundo à sua volta.

O antropólogo Robert Levy com seus estudos na década de 1960 sobre as taxas de suicídio nas ilhas Taiti observou que aumentavam quando acontecimentos infelizes tornavam as pessoas tristes. Mas a sua língua não dispunha de palavra para "triste" ou "deprimido". Eles diziam "doente" ou "estranho" e culpavam-se pela forma como se sentiam. Em outros grupos com vocabulário tosco, atribuem os sentimentos de tristeza ou frustração a uma presença demoníaca que parecia apossar-se das suas vidas. Para descrever este fenómeno, o linguista George Lakoff forjou a expressão "baixa cognição" (hypocognition) a fim de descrever uma condição em que "as palavras ou a linguagem necessária para exprimir uma ideia de forma a obter uma comunicação persuasiva é inexistente ou ineficaz" [2] .

No seu livro de 2004, "Don't Think of an Elephant! Know Your Values and Frame the Debate", ele acusa as doutrinas libertárias do "mercado livre" de [ênfase na] responsabilidade pessoal e do conceito de "menos governo" como sofrendo de "baixa cognição maciça". Na falta de conceitos económicos adequados para entender o que está a tornar as pessoas mais pobres, a ideologia da responsabilidade pessoal leva as pessoas a culparem-se por não serem capazes de evitar ficarem presas num sistema de servidão pela dívida.

O presente guia de A-a-Z tem como objectivo proporcionar o vocabulário e os conceitos para um diagnóstico mais eficaz da actual depressão económica (e, por extensão, psicológica), pensando em termos de juros compostos, servidão pela dívida, economias rentistas, rendimento não merecido, actividades de soma zero e parasitismo económico. Sem tais conceitos no primeiro plano das ideias, as actuais economias neoliberais tendem a sucumbir ao vírus da "dupla linguagem" orwelliana.

A análise económica lixo, com o seu vocabulário eufemístico, procura limitar as ferramentas do pensamento a fim de distrair a atenção quanto às causas – e, por consequência, do remédio necessário. Assim, a falsa teoria do "gotejamento" (trickledown) tece um manto de invisibilidade semântica em torno dos fenómenos do parasitismo rentista. As vidas de muitos devedores parecem ter sido capturadas por uma nuvem demoníaca ou uma personificação económica de Drácula que suga a sua subsistência. Políticos culpam os imigrantes ou outras minorias de tomarem seus empregos, enquanto os lobistas tentam convencer os assalariados e a classe média que o que os mantém tão amarrados à dívida não são os altos custos da habitação, educação e da vida, a serem financiados por hipotecas, empréstimos a estudantes e cartões de crédito. A culpa é deslocada para o governo por aplicar impostos demasiado altos aos 1% e "excesso de regulação", condições burocráticas para a realização de negócios, sobretudo regulamentos para promover o ar limpo, comida saudável e contabilidade honesta.

A iliteracia matemática é uma pré-condição para a generalizada falha em entender este crescimento exponencial das reivindicações do sector financeiro sobre a economia, enquanto a Teoria Económica Lixo deixa de atribuir a polarização económica à dinâmica predatória da deflação da dívida. A dívida está a absorver quase todo crescimento económico em países como a Grécia. Quando o volume da dívida cresce tanto como o rendimento nacional ou o PIB, e quando suporta uma taxa de juros (tipicamente 5%) acima da taxa de crescimento da economia (normalmente apenas 1% a 2%), então todo o crescimento do RN nacional é absorvido pelos credores.

Sem a compreensão generalizada de como a nossa economia se financiarizou e a criação de riqueza e o seu rendimento e riqueza ficou comprometido aos credores, não pode haver nenhuma democracia económica real na qual eleitores elejam representantes que os salvem da depressão e daquilo que Martinho Lutero chamou o demónio Cacus (uma personificação do crescimento exponencial da dívida). Qualquer democracia nominal a que faltem tais conhecimentos económicos é um oximoro, ou seja, uma contradição política interna.

A reescrita da história económica pela redefinição do significado das palavras

A história é escrita pelos vencedores, e os vencedores de hoje são os interesses adquiridos ressurgidos. Assim como a verdade é a primeira vítima da guerra, o passado é reescrito como se inevitavelmente tivesse de levar ao presente. Ao reescrever a história do pensamento económico, os lobistas ao serviço dos rentistas criaram um falso acerca pedigree do que é um clássico mercado livre. O objectivo é dar a impressão que todos os economistas aos quais é concedido estatuto no panteão intelectual endossam a visão actual de que a riqueza e o rendimento são razoavelmente distribuídos e que as elites financeiras são os principais responsáveis pela sua criação.

Nesta nova visão Winston Smith substituiu Adam Smith. No romance "1984", de Orwell o superestado anglo-americano, Oceania, empregou Winston Smith para reescrever o passado. Seu trabalho no Ministério da Verdade era actualizar continuamente a história para que se ajustasse à linha política do Big Brother, sempre em constante mudança. O slogan do Ministério era: "quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado".

A linguística tornou-se desta forma uma vítima tal como a História. Então pode dizer-se que quem controla a línguagem controla a forma como as pessoas se apercebem do mundo à sua volta. Tal como Michael Lewis descreveu em The Big Short : "O mercado de hipotecas subprime tinha um talento especial para obscurecer o que precisava ser esclarecido". Ele explica:
"A linguagem do mercado de títulos serve para um objectivo diferente daquele do mundo exterior. A terminologia do mercado de títulos foi concebida não tanto para transmitir significados e sim para confundir os não iniciados. … Os escalões dos títulos hipotecários subprime não foram chamados de escalões – ou qualquer outra coisa que pudesse levar o comprador de títulos a formar qualquer espécie de imagem concreta em sua mente – mas sim como "fatias" (tranches). A fracção inferior – o arriscado piso térreo – não foi chamada piso térreo, mas o mezanino... o que soa não tanto como um investimento perigoso, mas sim como uma poltrona valiosa num estádio com cobertura.
A escritora de ficção científica Ursula LeGuin, em A Wizard of Earthsea (1968), descreve sabichões treinados por um "Master Namer, um professor que sabe o verdadeiro nome de tudo". Um crítico social moderno comenta a ideia do LeGuin: "O nome verdadeiro é diferente do nome comum, o nome público. Assim, quando se aprende o verdadeiro nome de uma coisa, é-se capaz de repelir qualquer poder que ela tenha sobre si. Precisamos fazer isso com o sistema em que vivemos" [3] .

A designação de nomes verdadeiros está bloqueada por lobistas financeiros e seus estrategistas de relações públicas, os quais produzem o vocabulário usado pelos media populares ao discutirem economia. O objectivo é desviar a atenção de como o mundo realmente funciona, criar uma visão de conto de fadas em que nenhum rendimento é espoliação (extractive) e não há almoços grátis – enquanto na economia real está tudo voltado para a obtenção de almoços grátis.

A fim de preservar os seus privilégios especiais, os interesses adquiridos devem convencer o mundo de que ganham as suas fortunas contribuindo para a prosperidade comum. Eles retratam a Era das Reformas Progressistas e subsequente regulação económica e programas sociais, como uma recaída na autocracia e uma estrada para a servidão pela dívida, não uma fuga ao legado dos interesses feudais rentistas. E quando as políticas ao seu serviço mergulham as economias na austeridade, fazem lóbi para persuadir os governos a absorver suas perdas financeiras.

O rumo da civilização ao longo deste caminho destrutivo é um desvio absurdo da tradição da economia política clássica. Mas como Voltaire exemplarmente observou: "Quem acredita em absurdos comete atrocidades". Os absurdos da economia dominante de hoje conduziram às atrocidades da austeridade na Grécia, ao despovoamento da Letónia e ao desmantelamento pós-soviético da indústria russa e báltico desde 1991. A riqueza crescente dos 1% é conseguida pela imposição de austeridade às economias nacionais e pelo despojamento dos seus activos.

Aplausos para este despojamento de activos e para a economia de bolhas especulativas, como um modelo de negócio – juntamente com a tolerância para a deflação da dívida – mantêm agora o mundo numa depressão profunda ao mesmo tempo que habilita uma classe de rentistas a tornar-se os senhores neofeudais deste século.

A pretensa oposição dos "mercados livres" à servidão/comunismo

Para além do vocabulário desta linguagem, o pensamento é moldado pela metáfora social e pela psicologia de grupo. Em 1928 o livro Propaganda , de Edward Bernays (1891-1996), sobrinho de Sigmund Freud, descreveu a então nova disciplina de relações públicas (seu eufemismo para propaganda) como uma forma de "governo invisível" para manipular eleitores e consumidores jogando com suas esperanças e temores. "Se entendemos o mecanismo e os motivos do espírito de grupo, não será possível controlar e arregimentar as massas de acordo com nossa vontade sem seu conhecimento?" [4] A chave desta técnica, a "engenharia do consentimento" [5] , como Bernays explicou posteriormente, serviu para os estrategistas de relações públicas e seus designados formadores de opinião mobilizarem o "instinto de manada" e criarem uma mentalidade de "nós contra eles" para induzir eleitores e consumidores a actuarem contra seus interesses reais.

Tendo feito campanha em favor de Woodrow Wilson para promover a entrada dos EUA na I Guerra Mundial como um combate contra os "hunos alemães", Bernays ajudou a tornar aceitável e até chique que as mulheres na década de 1920 fumassem, chamando os cigarros de "tochas de liberdade". Mais tarde, apoiou o derrube do presidente democraticamente eleito da Guatemala Jacobo Arbenz, em 1954, pela United Fruit Company ao chamá-lo de "comunista" [6] . A nova junta governativa patrocinada pelos EUA retratou a reversão da reforma agrária e da libertação da escravidão rural pela dívida como restauração dos mercados livres.

Éis como os neoliberais de hoje estruturam as suas políticas a fim de ganhar aceitação pública. "Libertação do comunismo" ("eles") é o meio usado para significar mercados livres ("nós") definidos como oposição à tributação progressiva e outras políticas sociais democráticas do real interesse dos eleitores e dos consumidores. À semelhança das companhias de tabaco que apresentaram médicos para garantir aos consumidores que fumar era saudável (e emagrecia!), os 1% de hoje exibem vencedores do Prémio Nobel de Economia para promover a economia do "gotejamento" e cortes de impostos para os ricos.

Uma extensão lógica da abordagem de Bernays foi o que Leo Strauss, um imigrante alemão que se tornou professor da Universidade de Chicago (1949-69). Strauss ensinou que a maneira de mobilizar pessoas a reboque de uma política era apelar à sua identidade de grupo incutindo o "nós" contra "eles" tal como Bernays havia explicado. Um conjunto de mitos era necessário para modelar a opinião pública, tal como a República de Platão [7] descrevia como uma "mentira nobre" (gennaion pseudos): "uma artimanha para algumas falsidades que venham a ser necessárias – alguma que seja nobre" para ganhar a aceitação das regras das elites como "almas de ouro". Foi o que fizeram os oligarcas gregos quando se auto-denominaram aristocracias ("os melhores"), alegando que as suas acções protegiam a cidade-estado das "almas de bronze" (reformadores populistas demonizados como "tiranos") que podiam ascender ao posto de guardiões do Estado, anular dívidas e redistribuir a terra.

Um outro colega de Strauss em Chicago (1950-1962), Frederick Hayek, amalgamou a Era Progressista de programas sociais, comunismo, nazismo e fascismo tudo junto como sendo intrusões nos "mercados livres" e, portanto, como "o caminho para a servidão". Sua retórica visava reverter o impulso dos economistas clássicos para acabar com os privilégios rentistas e, portanto, livrar a economia real da servidão: uma classe hereditária de senhores da terra e banqueiros que se aliaram a outros interesses de extracção de renda.

Por que é que os neoliberais apoiam os neoconservadores imperialistas

Os ideólogos anti governo chamam ao investimento público em infraestruturas para impedir o sector privado de extrair rendas de "o caminho da servidão", nada menos que isto. A geopolítica desempenha um papel, dado que os investidores dos EUA procuram controlar a obtenção de renda a partir dos recursos naturais e de monopólios públicos de outros países. Este impulso para o controlo une economistas neoliberais a militares neoconservadores que pressionam por "mudanças de regime" nos países que procuram proteger os seus mercados, o domínio público e sistemas bancários a fim de promover seu próprio crescimento e bem-estar.

Os neoconservadores seguidores de Strauss distorceram a "inteligência" em enganosos sofismas para moldaram uma ideologia de Guerra Fria na América [8] . O seu colega, professor em Chicago (1964-80) Albert Wohlstetter prestou-se a servir como conselheiro das teses dos instigadores da Guerra Fria, Paul Wolfowitz e Zalmay Khalizad, um imigrante afegão que mobilizou o apoio dos EUA para os Taliban contra o regime laico aliado da Rússia, inflamando grupos militares fundamentalistas para o derrube de governos do Médio Oriente que procuravam autonomia em relação ao controle dos EUA. Wolfowitz e Khalizad montaram uma campanha de difamação contra Saddam Hussein, muito semelhante à de Bernays contra a Guatemala, afirmando que o Iraque estava a patrocinar a Al Qaeda e tinha armas de destruição em massa [9] .

Os neoliberais criaram uma "nobre mentira" estilo nós-contra-eles ao apropriarem-se de Adam Smith, John Stuart Mill e outros economistas clássicos como se estes houvessem endossado cortes de impostos e a desregulamentação do sector financeiro, do imobiliário e de outros sectores de extracção de renda. Isto é o oposto daquilo que hoje eles realmente advogariam com o aperfeiçoamento da sua teoria da renda para medir e remover fiscalmente ganhos não merecidos.

Tais sofismas com "mentiras nobres" retratam a política económica e fiscal a favor da finança como uma fortaleza democrática contra governos suficientemente fortes para desafiar o poder da alta finança e os interesses seus aliados na extracção de renda. Os 1% procuram criar uma mitologia da tradição, uma dependência como a Síndrome de Estocolmo e uma pseudo-inevitabilidade histórica darwiniana, para orientar o público no apoio aos 1%, como o "nós" universal, enquanto demoniza os defensores dos interesses dos 99% como "eles".

Esta Teoria Económica Lixo do engano promove tratados neoliberais como "reformas" de leis, impostos e regras comerciais, revertendo as reformas reais da Era Progressista. "Peritos" (lobistas corporativos) são enfeitados com as insígnias de prestigiosos títulos académicos para redefinir "progresso" como se não houvesse alternativa racional à mudança do planeamento económico de um governo democrático para os centros financeiros do mundo. Esta nova guerra fria ideológica é administrada pelo FMI, BM e OMC, sob o controle dos Estados Unidos. Países que adoptem políticas que não sirvam a Wall Street e seus satélites financeiros considera-se que caminham para a falta de liberdade – aquela do "outro". Esta inversão do que se pensava ser progresso há um século é um simulacro de liberdade e uma mentira ignóbil – como a maior parte das mentiras ditas "nobres", quando se pensa a respeito. 

[2] George Lakoff, "Women, Fire and Dangerous Things," March 27, 2013, citado em Rebecca J. Rosen, "Millions of Americans are facing a serious financial problem that has no name." The Atlantic, May 7, 2016. Ver também Robert I. Levy, Tahitians: mind and experience in the Society Islands (Chicago: 1975).
[3] Anne Wilson Schaef. When Society Becomes an Addict (Harper, San Francisco, 1987) p. 10.
[4] Edward Bernays, Propaganda (1928), p. 47.
[5] "The Engineering of Consent", Annals of the American Academy of Political and Social Science 250 (March 1947), pp. 113–20.
[6] Stephen Schlesinger and Stephen Kinzer, Bitter Fruit. The Story of the American Coup in Guatemala (1999), pp. 78-90.
[7] Plato, Republic, Book 3, 414b-415d.
[8] Seymour Hersh, "Selective Intelligence", The New Yorker, May 12, 2003.
[9] Jim Lobe, "Leo Strauss's Philosophy of Deception", Alternet, May 18, 2003. www.alternet.org/story/15935/leo_strauss'_philosophy_of_deception . "Tal como Thomas Hobbes, Strauss acreditava que a natureza inerentemente agressiva do seres humanos só podia ser restringida só por um poderoso Estado nacionalista. Tal como ele escreveu "a espécie humana é intrinsecamente perversa e tem de ser governada". Contudo, "tal governação só pode ser estabelecida quando os homens estão unidos – e eles apenas podem ser unidos contra outro povo" Ver também, Scott Horton, "Will the Real Leo Strauss Please Stand Up?" The Harpers blog, July 31, 2016. harpers.org/blog/2008/01/willthe-real-leo-strauss-please-stand-up/


A primeira parte encontra-se em
resistir.info/m_hudson/intro_junk_1.html

O original é o capítulo introdutório do livro "J is for Junk Economics – A Guide to Reality in an Age of Deception" , de Michael Hudson, ISLET, 2017, 404 p., ISBN 978-3-9814842-5-0. Tradução de DVC, revisão de JF. O conteúdo completo do livro é este:

Table of Contents
Foreword: Economies – and Economic Theory – at the Crossroads
Preface and Acknowledgements
Introduction: Social Naming Disorder and the Vocabulary of Deception
A-to-Z GUIDE
A is for Adam Smith. Asset-Price inflation and Austerity
C is for Casino Capitalism and the Client Acadernics who praise it
D is for Debt Deflation and the Debt Peonage it leads to
E is for Economic Rent and "Euthanasia of the Rentier"
F is for Fictitious Capital and the FIRE Sector where it is concentrated.
G is for Grabitization and the Groundrent that is its main objective.
H is for Hubris
I is for Inner Contradiction and the Invisible Hand
J is Junk Bonds and Junk Economics.
K is for Kleptocrat
L is for Leamed Ignorance
M is for Marginalism and the Money Manager Capitalism
N is for Neofeudalism and its Neoliberal advocates
O is for Oligarchy
P is Ponzi Scheme and the Pension-Fund Capitalism that feeds it
Q is for Quandary
R is for Rentiers and the Race to the Bottom they sponsor
S is for Say's Law and Serfdom
T is Trickle-Down Economics
U is for Unearned Income
V is for the Vested Interests
W is for Wealth Addiction
X & Y are for X and Y Axes
Z is for Zero-Sum Activity.
ESSAYS AND ARTICLES
The 22 Most Pervasive Economic Myths of Our Time
Economics As Fraud
Methodology is Ideology, and Dictates Policy
Does Economics Deserve A Nobel Prize? Commonweal 1970
Hudson Bubble Model: From Asset-Price Inflation to Debt-Strapped Austerity (Formulas. and Charts)

AUTHOR INTERVIEW: KILLING THE HOST (Companion book)
Eric Draitser's 2015 CounterPunch Radio interview with Michael Hudson

ABOUT THE AUTHOR
(and Paul Craig Roberts' Hudson Bio)

BOOKS AND PUBLICATIONS BY MICHAEL HUDSON

A-TO-Z GUIDE - MINI INDEX


Esta 2ª parte do capítulo introdutório de "J is for Junk Economics" encontra-se em http://resistir.info/ .

Publicação em destaque

Marionetas russas

por Serge Halimi A 9 de Fevereiro de 1950, no auge da Guerra Fria, um senador republicano ainda desconhecido exclama o seguinte: «Tenh...