sábado, 3 de dezembro de 2016

CARL HART - Crack - É possível entender



A convite do CESeC (Centro de Estudos de Sociedade e Cidadania) da Universidade Candido Mendes, o neurocientista Carl Hart veio ao Brasil pela primeira vez.

Professor da Universidade de Columbia em Nova York tornou-se uma referência na pesquisa sobre hábitos de uso e abusos de drogas por sua abordagem que combina a leitura científica, política e social do problema das drogas. Particularmente do crack.

Ele veio ao país para uma série de conferências, palestras, encontros e pesquisa de campo. Conheceu de acadêmicos a usuários de crack em situação de rua. De ativistas a nomes das política nacional. Falou com a mídia e viu como ela ainda segue refém de velhos e ultrapassados conceitos.

E para lançar a edição brasileira de seu livro "Um Preço Muito Alto", um relato autobiográfico e científico sobre como sua juventude no gueto, envolvido com o crime e as drogas, moldaram sua visão acadêmica e política sobre o assunto.

No Brasil, Hart viu a manifestação das contradições entre o que a sociedade pensa e o que a ciência tem a dizer sobre o "problema do crack". E lamentou perceber que hoje o Brasil está repetindo os mesmos equívocos e a mesma paranóia em relação ao crack que os EUA viveram nos anos 1980.

O Fluxo acompanhou a visita de Carl Hart ao Brasil. Participou de conferências, visitou com ele cenas de uso, comunidades sob ocupação militar, universidades.
Graças ao apoio do CESeC fez um resumo da visita e das ideias de Carl Hart.

Câmeras: Fernando Ligabue, Bruno Torturra e Tatiana Tófoli.
Edição: Felipe Carreli e Bruno Torturra.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A guerra do ocidente à verdade


por Paul Craig Roberts 
 
A "guerra ao terror" tem sido simultaneamente uma guerra à verdade. Durante quinze anos – desde o 11/Set até às "armas de destruição em massa" de Saddam Hussein e às "conexões al Qaeda", "ogivas nucleares iranianas", "utilização de armas químicas por Assad", mentiras infindáveis acerca de Kadafi, "invasão russa da Ucrânia" – os governos das assim chamadas democracias ocidentais consideraram essencial alinharem-se firmemente às mentiras a fim de prosseguirem suas agendas. Agora estes governos ocidentais tentam desacreditar os que contam verdades e desafiam as suas mentiras.

Serviços noticiosos russos estão sob o ataque das presstitutas da UE e do ocidente, fornecedoras de "falsas notícias". www.globalresearch.ca/... Obedecendo às ordens dos seus mestres de Washington, a UE aprovou de facto uma resolução contra os media russos por não seguirem a linha de Washington. O presidente russo afirmou que a resolução é um "sinal visível da degradação da ideia de democracia na sociedade ocidental".

Tal como previu George Orwell, dizer a verdade é agora encarado pelos governos "democráticos" do ocidente como um acto hostil. Um sítio web totalmente novo, propornot.com, acaba de surgir condenando uma lista de 200 sítios web da Internet que apresentam notícias e visões em desacordo com os media presstitutos que servem agendas de governos. http://www.propornot.com/p/the-list.html Será que o financiamento de propornot.com vem da CIA, do National Endowment for Democracy ou de George Soros? Tenho orgulho em dizer que paulcraigroberts.org está na lista.

O que aqui vemos é o ocidente a adoptar o modo como os sionistas de Israel trata os críticos. Qualquer um que faça objecções ao tratamento cruel e desumano de palestinos por parte de Israel é demonizado como "anti-semita". No ocidente aqueles que discordam de políticas assassinas e brutais de responsáveis públicos são demonizados como "agentes russos". O próprio presidente eleito dos Estados Unidos foi designado como "agente russo".

Este esquema de redefinir como propagandistas os que contam a verdade saiu pela culatra. O esforço para desacreditá-los produziu, ao invés, um catálogo de sítios web onde pode ser encontrada informação confiável e os leitores estão a acorrer aos sítios da lista. Além disso, o esforço para desacreditar os que dizem a verdade mostra que governos do ocidente e seus presstitutos são intolerantes à veracidade e à diversidade de opinião, assim como estão empenhados em forçar o povo a aceitar como verdadeiras as mentiras em causa própria dos governos.

Evidentemente, os governos e os media ocidentais não têm respeito pela verdade. Assim, como pode o ocidente ser democrático?

O presstituto Washington Post desempenhou o papel que lhe foi assinalado na pretensão apregoada por Washington de que os media alternativos consistem de agentes russos. Craig Timberg, o qual parece destituído de integridade ou de inteligência, e talvez de ambos, é o pateta do WaPo que redigiu a notícia falsa de que "duas equipes de investigadores independentes" – nenhuma das quais foi identificada – descobriu que os russos exploraram minha credulidade, a do CounterPunch, do Professor Michel Chossudovsky do Global Research, Ron Paul, Lew Rockwell, Justin Raimondo e de 194 outros sítios web para ajudar "um candidato insurgente" (Trump) "a pretender a Casa Branca".

Observe-se a expressão aplicada a Trump – "candidato insurgente". Isto lhe diz tudo o que precisa saber.

Pode ler aqui o que passa por "noticiário confiável" no presstituto Washington Post: www.washingtonpost.com/... Ver também: www.alternet.org/... e Glenn Greenwald de The Intercept, o qual de alguma forma escapou à inclusão na lista dos 200, trata de Timberg e do Washington Post aqui: theintercept.com/...

As desculpas dos governos ocidentais começam a esgotar-se. Desde o regime Clinton, a acumulação de crimes de guerra cometidos por governos ocidentais excedeu aqueles da Alemanha nazi. Milhões de muçulmanos foram massacrados, deslocados e desalojados em sete países. Nem um único criminoso de guerra ocidental foi responsabilizado.

O desprezível Washington Post é um apologista primário destes crimes de guerra. Todos os media impressos e de TV do ocidente estão tão fortemente implicados nos piores crimes de guerra da história humana que, se a justiça alguma vez chegar, os presstitutos estarão lado a lado no banco dos reus com os Clintons, George W. Bush e Dick Cheney, Obama e seus operacionais neocon ou manipuladores.
27/Novembro/2016
 
O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

domingo, 27 de novembro de 2016

Fidel, um Aquiles comunista


por Miguel Urbano Rodrigues [*]

      Querido povo de Cuba:
      Compareço com profunda dor para informar o nosso povo e os nossos amigos da América e do mundo que hoje, 25 de Novembro, às 10:29 horas da noite, faleceu o Comandante em Chefe da Revolução Cubana Fidel Castro Ruz. Em cumprimento da vontade expressa do Companheiro Fidel, os seus restos serão cremados. Às primeiras horas de manhã de sábado 26 a comissão organizadora dos funerais dará ao nosso povo uma informação detalhada sobre a organização da Homenagem póstuma que será feita ao fundador da Revolução Cubana.
      Até à vitória sempre!
      Alocução do General de Exército Raúl Castro Ruz,
      Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros da República de Cuba
'. Em meados dos anos 60, encerrando o XII Congresso dos Trabalhadores Cubanos, em Havana, Fidel formulou um desejo: "que no futuro poucos homens, ou mesmo ninguém, tenham a autoridade que tivemos no início da Revolução, porque é perigoso que seres humanos disponham de tanta autoridade".

O revolucionário cubano não podia então prever que essa situação, que o preocupava, iria manter-se por muitas décadas.

A doença que o levou agora a transferir a chefia do Estado e do Partido para o irmão desencadeou a nível mundial uma avalanche de opiniões contraditórias sobre o homem e a sua intervenção na História. Raramente em vida de um estadista célebre se escreveu e falou tanto sobre ele como agora sobre Fidel.

Ele foi na segunda metade do século XX o dirigente do Terceiro Mundo que maior influência exerceu pela palavra e pela acção no rumo de acontecimentos que marcaram o processo da descolonização e as lutas contra o imperialismo.

A meditação sobre a temática do poder pessoal acompanha-o desde a juventude.

Creio que foi sincero ao definir como perigoso o excesso de autoridade concentrada num dirigente. Foram as próprias circunstâncias da História que o investiram de um poder cada vez maior que não ambicionava.

Fidel tinha lido na universidade os clássicos do marxismo. Estudou-os depois na prisão. Mas a sua opção pelo socialismo resultou do movimento, da dialéctica da História.

O atentado terrorista que fez explodir [o navio] La Coubre e a invasão mercenária de Playa Giron, ideada e financiada pelos EUA, ocorreram numa época em que o brado soy y seré marxista-leninista, que alarmou Washington, expressou mais a decisão de defender a Revolução situando-a no campo socialista, do que propriamente uma opção ideológica.

Fidel insistiu muitas vezes no significado que sempre atribuiu à avaliação da correlação de forças. Ao reconhecer que em Cuba foram cometidos muitos erros tácticos na condução do processo, conclui que não identifica um só erro estratégico importante. O mérito, acrescentarei, é seu.

Já na Sierra Maestra durante a luta armada, ele revelara dotes de um grande estratego. Mas foi posteriormente que, na confrontação permanente com o imperialismo, desenvolveu uma capacidade extraordinária de compreender o movimento da História nos momentos em que o seu rumo se define.

Escolha dolorosa

Isso aconteceu concretamente na fase crítica em que a Revolução, numa guinada brusca, rompeu com o discurso e a praxis dos anos da utopia para fazer uma escolha dolorosa. Cuba estava à beira do desastre económico e o único país que lhe estendeu a mão foi a União Soviética. Sem essa aliança tudo se teria afundado. Naturalmente o preço foi muito alto. A Revolução entrou num período cinzento – assim lhe chamaram – num processo de burocratização que atingiu duramente a intelligentsia, sufocou o debate de ideias e a criatividade em múltiplas frentes.

Mas não havia alternativa.

Até o Che, o homem novo do futuro, na definição de Fidel, o companheiro entre todos admirado e querido, que tinha sobre o mundo um olhar nem sempre coincidente, reconheceu na sua carta de despedida, ao partir para a aventura africana, que lamentava não se ter apercebido mais cedo das capacidades de liderança e de visão estratégica que faziam do comandante um revolucionário incomparável, único.

Lenine emergiu como um líder incontestado na mais brilhante geração de revolucionários profissionais europeus do século XX. Fidel não foi tão afortunado, nem isso era possível.

O núcleo de quadros revolucionários do Exército rebelde era insuficiente para enfrentar após a vitória os desafios colocados pela História. A geração que acompanhou Fidel forjou-se em circunstâncias muito adversas num pequeno país já bloqueado pelos EUA, vítima de uma guerra não declarada.

A excepção Fidel

Alguns historiadores criticam em Fidel um voluntarismo que nunca conseguiu dominar. Esse voluntarismo marcou-lhe aliás a intervenção nas lutas do seu povo desde os anos da Universidade. A própria definição que Fidel apresenta do "marxismo martiano" como síntese do materialismo dialéctico e do idealismo que vinha de Luz Caballero y Varela confirma uma evidência: a Revolução Cubana configura um desafio à lógica da História. Assim aconteceu com Moncada, com a aventura do Granma, a luta na Sierra, e o choque posterior com o imperialismo norte-americano. A decisão de resistir e a coragem do povo cubano no combate que confirmou ser possível a resistência serão recordadas pelo tempo adiante como acontecimentos épicos da História da humanidade.

Ora o épico não pode ser explicado pela razão.

Para compreendermos a excepção Fidel, os tratados de ciência política são insuficientes.

Identifico nele uma síntese de heróis mitológicos e de heróis modernos que o inspiraram num batalhar que já se tornou História.

Fidel traz à memória Aquiles, Martí e Bolívar.

Do aqueu e do venezuelano herdou a coragem sobre-humana e a fome dos desafios ao impossível aparente. Mas a sede de glória, que acompanhou Bolívar, nunca o fascinou e a desambição foi sua companheira permanente. Contrariamente a Aquiles não atravessou o mar para destruir as Tróias contemporâneas. A sua gente atravessou um oceano mas para levar solidariedade a povos que se batiam pela liberdade.

Do cubano Martí aprendeu que revolução alguma pode vencer sem fidelidade a uma concepção ética da vida, sem amor pela humanidade. E, por humano, apresenta também alguns defeitos dos três.

Ao escrever estas linhas recordo uma conhecida afirmação sua: o dever do revolucionário é fazer a revolução.

Poucos homens em milénios de História colocaram com tanta coerência a sua vida ao serviço desse objectivo, erigido em infinito absoluto.

Imagino-o na sua cama, no hospital, insensível ao vendaval de calúnias desencadeado pela sua doença e tocado pelo furacão simultâneo de afecto, respeito e admiração.

Os revolucionários de todos os povos, onde quer que se encontrem, desejam-lhe um rápido restabelecimento. Agradecem-lhe o que fez pela humanidade.

Quase carregou o Estado e o Partido às costas em períodos de crise. E isso foi negativo. Por ter consciência da lei da vida, sabe que exigiu de si muito mais do que podia e devia. Exagerou.

Recuperada a saúde, poderá ser ainda por longos anos uma consciência actuante da humanidade revolucionaria se, distanciado de esgotantes tarefas do quotidiano, utilizar o tempo para transmitir ao seu povo e ao mundo o saber e a experiência acumulados, a sua lição de moderno Aquiles, de discípulo de Bolívar.

El comandante

Vivi oito anos em Cuba. Mais de uma vez, escutando durante muitas horas os seus discursos na Praça da Revolução em Havana, ou em comemorações do 26 de Julho noutras cidades da Ilha, me interroguei sobre a contradição entre um poder pessoal enorme, minimamente partilhado a nível decisório, e o humanismo de quem o exercia, identificável no amor pelas crianças e na solidariedade com os oprimidos e excluídos de todo o planeta.

Comportam-se como hipócritas conscientes aqueles que por ódio ou fanatismo ideológico qualificam Fidel de ditador brutal e sanguinário, de tirano feroz.

Sabem que a acusação é falsa

Quem conhece um pouco Cuba não ignora que existe uma relação de afecto profundo entre o povo cubano e el comandante en jefe. Ele é amado pela esmagadora maioria dos seus compatriotas. Depositam nele uma confiança absoluta. É um sentimento que não cultivou e talvez o inquiete por estar consciente de que qualquer dirigente, por mais dotado e sábio que seja, não pode substituir o colectivo como sujeito transformador da História.

Não há calúnia mediática que resista à prova da vida. Definir como ditador um dirigente amado por um povo que governa há quase meio século é um absurdo maldoso. O consenso entre o governante e a sua gente ridiculariza a diatribe forjada pelos seus inimigos.

A grandeza de Fidel teria obviamente de desencadear campanhas de ódio. Mas não fez surgir somente inimigos e caluniadores. É inseparável também do aparecimento de uma geração de epígonos. Em Cuba e pelo mundo afora eles apareceram. Ora a tendência para a glorificação incondicional dos grandes homens é sempre negativa. Porque não há governante perfeito. E Fidel sabe disso e não gosta que vejam nele um super-homem.

Ele é o que é, um ser mortal, modelado por uma vontade de aço, uma inteligência excepcional, e uma fome insaciável de humanização revolucionária da vida, mas com uma lúcida percepção das limitações da condição humana.
26/Novembro/2016
 
[*] O presente artigo, anterior ao falecimento, foi publicado no Avante! e no Granma.

O original encontra-se em www.odiario.info/um-revolucionario-incomparavel-fidel-um-aquiles/


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A imensa fraude do TTIP e os seus defensores

por José Goulão

Neoliberalismo, populismo, fascismo, guerra, terrorismos, TTIP, CETA, Trump e a nata europeia remam hoje convictamente e todos para o mesmo lado. Por isso o estado do mundo é o que é.
Grafitti de contestação ao TTIP em Malmö, Suécia
Grafitti de contestação ao TTIP em Malmö, SuéciaCréditos

Donald Trump ainda não foi entronizado presidente dos Estados Unidos da América, pois não tomou posse – nem sequer o colégio eleitoral emitiu ainda o seu veredicto. Nada do que se ventila, especula, elabora, analisa e profetiza sobre a actuação do vencedor «surpresa», que se limitou a driblar as previsões de incautos e distraídos, pode ser levado à letra, tomado como definitivo.

A escolha dos visitantes com quem Trump se faz fotografar nesta fase, em que o presidente em exercício se arrasta penosamente no meio dos escombros de uma gestão danosa e altamente perigosa para o mundo, deve ser observada de olhos bem abertos, mas nada mais do que isso.

Podem ser sinais, tendências, sintomas, mas são igualmente, disso podem estar certos, manobras de diversão, truques de ilusionismo e marketing distribuído a partir da Trump Tower e, muito provavelmente, das muitas agências governamentais, a começar pelas de espionagem e segurança.

Mesmo a pré-indigitação de alguns dos possíveis membros da nova administração não permite antecipar o conteúdo real desta; as biografias que têm vindo a lume são interpretadas de mil e uma maneiras quanto à sua projecção no futuro, e entre essas leituras podem ser encontradas conclusões em determinados sentidos e nos seus contrários.

O presidente dos Estados Unidos não deixará de ser o presidente do establishement; o presidente dos Estados Unidos é o presidente do conselho de administração do complexo militar-industrial-tecnológico que governa não apenas o país como o mundo. Estas duas realidades permanecem imutáveis, até ao momento. Caberá a Trump subvertê-las, se quiser dar razão à espantação de incautos ou distraídos, mas não creio que amanhã seja a véspera desse dia.

O que ficou escrito vale igualmente para o futuro das duas imensas malfeitorias em desenvolvimento, conhecidas pela designação genérica de tratados transatlânticos, e que surgem como passos indispensáveis para a implantação global da desordem neoliberal, para a instauração do poder absoluto da anarquia capitalista conhecida como «libertação do mercado».

Acérrimos defensores do TTIP como a senhora Merkel – para quem essa modernice da limitação de mandatos é para os trouxas e bananas – atirou rapidamente a toalha ao chão. «Com Trump não haverá TTIP», garante. Nem parece dela. E não é, não passa de uma ténue cortina de fumo.

Porque a senhora Merkel e todos os outros acérrimos defensores da fraude do «comércio transatlântico livre» – entre eles o Governo de Portugal, até prova em contrário – procuram acelerar o CETA na clandestinidade, para ultrapassar eventuais perturbações no TTIP.

Ora o CETA e o TTIP são irmãos gémeos. TTIP é o tratado de liberalização do comércio entre a União Europeia e os Estados Unidos; CETA é a mesma coisa entre a União Europeia e o Canadá. Os dois desembocam no mesmo descalabro para os povos dos lados de cá e de lá do Atlântico, tanto mais que muitas são as empresas dos Estados Unidos que já usam o Canadá como ponte para a Europa.

Tornou-se moda tecnocrática dentro do unanimismo neoliberal e versões aparentadas – uma atitude ideológica como qualquer outra – ser-se contra esse fantasma terrível que é «o proteccionismo»; mesmo que, como no caso do CETA e do TTIP, abolir o proteccionismo seja somar mais um milhão de pessoas ao exército europeu de desempregados, segundo um relatório do Parlamento Europeu; ou permitir «o assalto das grandes corporações à economia mundial», de acordo com uma investigação do jornal britânico The Guardian.

Porque o TTIP e o CETA são fraudes imensas. Apesar de lançados e desenvolvidos no maior secretismo, como um dos derradeiros feitos de Barroso antes de se transferir de vez para a banda dos banksters, o que se sabe dos dois tratados é que os governos podem ser levados à justiça pelas multinacionais se tomarem medidas que lhes «provoquem prejuízos», sendo que a medida não funciona no sentido inverso; o que for privatizado jamais poderá ser nacionalizado; as protecções ambientais e sanitárias arduamente alcançadas no espaço europeu serão arrasadas de uma penada com a entrada livre dos produtos alimentares norte-americanos onde o uso de transgénicos, hormonas e antibióticos é admitido; o desabamento do «proteccionismo» transatlântico libertará para a atmosfera mais 21 milhões de toneladas de CO2, ridicularizando todas as decisões tomadas em magnas e esforçadas reuniões internacionais.

O TTIP e o CETA são enormes fraudes, sobretudo, porque eliminam de maneira clandestina muitas decisões favoráveis aos cidadãos, suas vidas, saúde e o seu meio ambiente, tomadas através do funcionamento dos mecanismos democráticos. O TTIP e o CETA são assaltos à democracia perpetrados pelos grandes interesses económicos e financeiros internacionais, a maior parte deles com lugar cativo no complexo militar-industrial-tecnológico sediado nos Estados Unidos da América.
«Uma NATO económica», chamou a senhora Clinton a estes tratados. E poucas vezes terá dito coisa tão acertada e sintonizada com a realidade.

Não deixa de ser revelador que a senhora Merkel e tantas outras vozes europeias estejam agora incomodadas com o suposto «proteccionismo» do presidente norte-americano eleito. Verificamos assim que a nata da União Europeia está disposta a assumir até às últimas consequências as fraudes democráticas do TTIP e do CETA, mesmo quando do lado norte-americano, o seu inventor e maior patrocinador, pareça haver alguém que agora as rejeita.

E bastaria isto para se perceber onde irá parar o suposto «proteccionismo» de Donald Trump. O TTIP e o CETA são pilares fundamentais para instauração plena da ditadura neoliberal global, um processo no qual a escolha do novo presidente norte-americano está obviamente inserido.

A suposta antinomia entre o estado actual do neoliberalismo e os populismos e fascismos proliferantes é um mal-amanhado truque de propaganda que só poderá sensibilizar ainda mais incautos e distraídos. Coincidem no tempo, na caminhada e na fase actual de desenvolvimento do capitalismo, da mesma maneira que, na sua época, Hitler foi um produto ao serviço de um poderoso complexo militar-industrial-tecnológico.

Neoliberalismo, populismo, fascismo, guerra, terrorismos, TTIP, CETA, Trump e a nata europeia remam hoje convictamente e todos para o mesmo lado. Por isso o estado do mundo é o que é.

aqui:http://www.abrilabril.pt/imensa-fraude-do-ttip-e-os-seus-defensores

domingo, 20 de novembro de 2016

A alternância do poder imperial

por Manlio Dinucci


A derrota de Hillary é em primeiro lugar a derrota de Obama que, com o campo tomado em seus flancos, vê rejeitada a própria presidência. Conquistada, na campanha eleitoral de 2008, com a promessa que tinha sido apoiada não só por Wall Street mas também por “Main Street”, ou seja, o cidadão médio.

Desde então, a classe média viu piorar sua própria condição, a taxa de pobreza aumentou, enquanto os ricos se tornaram cada vez mais ricos. Agora, apresentando-se como paladino da classe média, conquista a presidência Donald Trump, o outsider bilionário.

O que muda na política externa dos Estados Unidos com a troca de guarda na Casa Branca? Certamente, não o objetivo estratégico fundamental de se manter como a potência global dominante, posição que vacila cada vez mais. Os Estados Unidos perdem terreno no plano econômico e no político e também com relação à China, à Rússia e outros “países emergentes”. Por isso, jogam a espada na balança. Daí a série de guerras em que Hillary Clinton desempenhou um papel de protagonista.

Como resulta da sua biografia autorizada, foi ela que na condição de primeira dama convenceu o esposo presidente a destruir a Iugoslávia com a guerra, iniciando a série das “intervenções humanitárias” contra “ditadores” acusados de “genocídio”. Como resulta dos seus e-mails, foi ela que na condição de secretária de Estado convenceu o presidente Obama a destruir a Líbia com a guerra e a iniciar a mesma operação contra a Síria. Foi ela que promoveu a desestabilização da Venezuela e do Brasil e o “Pivô para a Ásia” estadunidense com objetivos contrários à China. Foi ainda ela, por meio da Fundação Clinton, que preparou na Ucrânia o terreno para o golpe da Praça Maidan que abriu caminho à escalada dos EUA/Otan contra a Rússia.

Dado que tudo isso não impediu o relativo declínio da potência estadunidense, cabe agora à administração Trump corrigir o alvo, visando ao mesmo objetivo. É irrealista a hipótese de que ele vá abandonar o sistema de alianças centrado na Otan sob o comando dos EUA: seguramente, porém, baterá a mão na mesa para obter dos aliados um maior empenho, sobretudo em termos de despesas militares.

Trump poderia buscar um acordo com a Rússia, inclusive com o intento de separá-la da China, em relação à qual ele anuncia medidas econômicas, acompanhadas de um ulterior fortalecimento da presença militar estadunidense na região da Ásia-Pacífico.

Tais decisões, que levam seguramente a outras guerras, não dependem do temperamento belicoso de Donald Trump, mas dos centros de poder onde se encontra o quadro do comando de que depende a própria Casa Branca. São os colossais grupos financeiros que dominam a economia (somente o valor acionário das empresas de Wall Street supera o de toda a receita nacional dos Estados Unidos). São as multinacionais, cujas dimensões econômicas superam as de estados inteiros, que deslocam a produção aos países que oferecem força de trabalho a baixo custo, provocando internamente o fechamento de fábricas e desemprego (daí a piora das condições da classe média estadunidense). São os gigantes da indústria bélica que ganham com a guerra.

É o capitalismo do século 21, do qual os EUA são a máxima expressão, que cria uma crescente polarização entre riqueza e pobreza. O setor que representa 1% da população mundial possui mais do que os restantes 99%.

À classe dos super-ricos pertence o neopresidente Trump, ao qual o premiê italiano Renzi, como um Arlequim servidor de dois patrões, já jurou fidelidade depois de tê-la jurado ao presidente Obama.
 
Tradução
José Reinaldo Carvalho
Editor do site Resistência
Fonte
Il Manifesto (Itália)

aqui:http://www.voltairenet.org/article194098.html

domingo, 6 de novembro de 2016

Julian Assange: – Clinton & ISIS financiados pelo mesmo dinheiro – Não permitirão a vitória de Trump


por John Pilger 
 
No segundo excerto de John Pilger Special, a ser difundido exclusivamente pela RT no próximo sábado por cortesia da Dartmouth Films, Julian Assange acusa Hillary Clinton de enganar os americanos quanto ao verdadeiro âmbito do apoio ao Estado Islâmico por parte de Washington e dos seus aliados do Médio Oriente.

Num email de 2014 publicado no mês passado pela WikiLeaks de Assange, Hillary Clinton, que foi secretária de Estado até o ano passado, insta John Podesta, então conselheiro de Barack Obama, a "fazer pressão" sobre o Qatar a Arábia Saudita, "os quais estão a fornecer apoio financeiro e logístico clandestino ao ISIL [Islamic State, IS, ISIS] e outros grupos sunitas radicais".

"Penso que este é o email mais significativo de toda a colecção", afirmou Assange, cujo sítio de denúncias divulgou três conjuntos de emails relativos à Clinton durante o ano passado, contou Pilger numa entrevista exclusiva, cortesia da Dartmouth Films .

"Todos os analistas sérios sabem, e até o governo dos EUA concordou, que algumas figuras sauditas têm estado a apoiar o ISIS e a financiar o ISIS, mas a trapaça era sempre que alguns príncipes "patifes" utilizando o seu dinheiro do petróleo fazer o que querem, mas que o governo realmente desaprova. Mas aquele email diz que é o governo da Arábia Saudita e o governo do Qatar que têm estado a financiar o ISIS".

Assange e Pilger, que se sentaram para a sua entrevista de 25 minutos na Embaixada Equatoriana em Londres, onde o denunciante está refugiado desde 2012, conversaram acerca do conflito de interesses entre o posto oficial da Clinton, mantido durante todo o primeiro mandato de Obama, a [organização] não lucrativa do seu marido e os responsáveis do Médio Oriente, cujo desejo declarado de combater o terrorismo pode não ter sido sincero.

John Pilger: Os sauditas, os qataris, os marroquinos, os bahrainitas, particularmente os dois primeiros, estão a dar todo este dinheiro para a Fundação Clinton, enquanto Hillary Clinton é secretária de Estado, e o Departamento de Estado está a aprovar vendas maciças de armas, particularmente para a Arábia Saudita.

Julian Assange: Sob Hillary Clinton – e os emails de Clinton revelam uma discussão significativa disto – o maior negócio de sempre do mundo sobre vendas de armas foi efectuado com a Arábia Saudita: mais de US$80 mil milhões. Durante o seu mandato, o total de exportação de armas dos EUA duplicou em valor de dólares.

JP: "Claro, a consequência disto é que este notório grupo jihadista, chamado ISIL ou ISIS, é criado em grande medida com dinheiro de gente que está a dar dinheiro para a Fundação Clinton?

JA: Sim.

Pilger também questionou Assange acerca de acusações cada vez mais frequentes do campo de Clinton, e dos media ocidentais, de que a WikiLeaks procura inclinar a eleição presidencial da próxima semana em favor de Donald Trump – talvez por ordem da Rússia.

Mas Assange considerou como improvável a perspectiva de Trump, o qual está para trás nas pesquisas, sair vitorioso – e não necessariamente por não ter as boas graças do eleitorado.

"Minha análise é que não seria permitido a Trump que vencesse. Por que digo isto? Porque ele tem todo o establishment distante do seu lado. Trump não tem um establishment, com a excepção talvez do evangélicos, se é que se pode chamá-los de establishment", disse Assange. "Bancos, [serviços de] inteligência, companhias de armas, dinheiro estrangeiro, etc estão todos por trás de Hillary Clinton. E os media também. Os proprietários dos media e os próprios jornalistas".
04/Novembro/2016 
 
Ver também:
  • Assange: WikiLeaks did not receive Clinton emails from Russian govt (JOHN PILGER EXCLUSIVE)
  • Clinton knew Saudi Arabia, Qatar provide 'clandestine' support to ISIS – WikiLeaks
  • 'Slaughter Donald for Putin bromance': #Podesta15 emails reveal ISIS strategy diversion for Clinton

    O original encontra-se em www.rt.com/news/365299-assange-pilger-saudi-clinton/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 05/Nov/16

    quarta-feira, 2 de novembro de 2016

    Por dentro do governo invisível: guerra, propaganda, Clinton & Trump


    por John Pilger
     
    Cartoon de Ben Garrison. O jornalista norte-americano, Edward Bernays, é frequentemente descrito como o homem que inventou a propaganda moderna.

    Sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, foi Bernays que cunhou o termo "relações públicas" como um eufemismo para volteio e seus enganos.

    Em 1929, ele persuadiu feministas a promoverem cigarros pondo mulheres a fumar no desfile da Páscoa de Nova York – comportamento então considerado estranho. Uma feminista, Ruth Booth, declarou: "Mulheres! Acendam outra tocha da liberdade! Derrubem mais um tabu sexista!"

    A influência de Bernays estendeu-se muito além da publicidade. Seu maior sucesso foi seu papel em convencer o público americano a aderir ao massacre da Primeira Guerra Mundial. O segredo, segundo ele, era a "engenharia do consentimento" popular, a fim de "controlar e dirigir de acordo com a nossa vontade, sem seu conhecimento sobre o assunto".

    Ele descreveu isso como "o verdadeiro poder dominante em nossa sociedade" e chamou-lhe "governo invisível".

    Atualmente, o governo invisível nunca foi tão poderoso e tão menos compreendido. Na minha carreira como jornalista e cineasta, nunca conheci uma propaganda tão insinuante nas nossas vidas. Ela verifica-se agora e permanece incontestada.

    Imagine duas cidades.

    Ambas estão sob o cerco das forças do governo desse país. Ambas estão ocupadas por fanáticos que cometem atrocidades terríveis, tais como a decapitação de pessoas.

    Mas existe uma diferença fundamental. Num cerco, os soldados do governo são descritos como libertadores por repórteres ocidentais neles incorporados, que entusiasticamente relatam suas batalhas e ataques aéreos. Há primeiras páginas de jornais com fotos destes heroicos soldados a fazerem o V de vitória. Há escassa menção a baixas civis.

    Na segunda cidade – em outro país vizinho – quase exatamente o mesmo está a acontecer. As forças do governo sitiam uma cidade controlada pela mesma ninhada de fanáticos.

    A diferença é que esses fanáticos são apoiados, financiados e armados por "nós" – Estados Unidos e Grã-Bretanha. Eles ainda dispõem de um centro de mídia que é financiado pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha.

    Outra diferença é que os soldados do governo que mantêm esta cidade sob cerco são considerados os maus, condenados por agredir e bombardear a cidade – o que é exatamente o que os bons soldados fazem na primeira cidade.

    Confuso? Na verdade não. Tal é o duplo padrão básico que é a essência da propaganda. Refiro-me, naturalmente, ao cerco atual da cidade de Mosul pelas forças do governo do Iraque, que são apoiadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha e ao cerco de Alepo pelas forças do governo da Síria, apoiados pela Rússia. Um é bom; o outro é ruim.

    O que raramente se informa é que ambas as cidades não seriam ocupadas por fanáticos e devastada pela guerra se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não tivessem invadido o Iraque em 2003. Esse empreendimento criminoso foi lançado sob mentiras notavelmente semelhantes à propaganda que agora distorce nossa compreensão da guerra civil na Síria.

    Sem essa propaganda apresentada como notícia, o monstruoso Daesh, a Al-Qaida, a al-Nusra e o resto da gangue jihadista poderia não existir, e o povo da Síria não precisaria estar hoje a lutar pela sua vida.

    Alguns podem lembrar, em 2003, uma sucessão de repórteres da BBC a voltarem-se para a câmara e a dizer-nos que Blair fora "vingado" pelo que acabou por ser o crime do século. As redes de televisão norte-americanas produziram a mesma validação para George W. Bush. A Fox News evocou Henry Kissinger para difundir as falsificações de Colin Powell.

    No mesmo ano, logo após a invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, o famoso jornalista investigativo americano. Perguntei-lhe: "O que teria acontecido se os meios de comunicação mais livres do mundo tivessem contestado seriamente o que acabou por ser propaganda bruta?"

    Ele respondeu que se os jornalistas tivessem feito seu trabalho, "há uma muito, muito boa probabilidade de que não teriamos ido para a guerra no Iraque".

    Foi uma declaração chocante, e apoiada por outros jornalistas famosos a quem coloquei a mesma pergunta – Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores da BBC, que preferiram o anonimato.

    Por outras palavras, se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, se tivessem contestado e investigado a propaganda ao invés de amplificá-la, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivas hoje, e não haveria ISIS e nem o cerco de Alepo ou Mosul.

    Não teria havido nenhuma atrocidade no metro de Londres em 7 de julho de 2005. Não teria havido nenhuma fuga de milhões de refugiados; não haveria acampamentos miseráveis.

    Quando a atrocidade terrorista de Novembro último aconteceu em Paris, o presidente François Hollande enviou imediatamente aviões para bombardear a Síria – e mais terrorismo seguiu-se, como era de prever, o resultado da linguagem bombástica de Hollande acerca de a França estar "em guerra" e não "mostrar nenhuma clemência". Que a violência estatal e violência jihadista alimentam-se mutuamente é a verdade que nenhum líder nacional tem a coragem de falar.

    "Quando a verdade é substituída pelo silêncio", disse o dissidente soviético Yevtushenko, "o silêncio é uma mentira."

    O ataque ao Iraque, o ataque à Líbia e o ataque à Síria aconteceram porque o governo de cada um desses países não era um fantoche do Ocidente. O registo de direitos humanos de um Saddam ou de um Kadafi era irrelevante. Eles não obedeceram ordens nem renunciaram ao controle dos seus países.

    O mesmo destino aguardava Slobodan Milosevic uma vez que ele se recusou a assinar um "acordo" que exigia a ocupação da Sérvia e sua conversão numa economia de mercado. Seu povo foi bombardeado, e ele foi processado em Haia. Independência deste tipo é intolerável.

    Como revelou a WikLeaks, foi apenas quando o líder sírio, Bashar al-Assad, em 2009, rejeitou um oleoduto, que atravessaria o seu país do Qatar para a Europa, é que foi atacado.

    A partir desse momento, a CIA planejou destruir o governo da Síria com fanáticos jihadistas – os mesmos fanáticos que atualmente dominam o povo de Mosul e do leste de Aleppo

    Por que isso não é notícia? O ex-funcionário da chancelaria britânica Carne Ross, que foi responsável pela manutenção de sanções contra o Iraque, disse-me: "Nós alimentávamos os jornalistas com factoides de inteligência higienizada, ou os deixávamos congelados do lado de fora. Era assim que funcionava."

    O cliente medieval do Ocidente, a Arábia Saudita – à qual os EUA e a Grã-Bretanha vendem milhares de milhões de dólares em armas – está atualmente destruindo o Iémen, um país tão pobre que, no melhor dos casos, metade das crianças estão desnutridas.

    Procure no YouTube e verá o tipo de bombas maciças – "nossas" bombas – que os sauditas usam contra aldeias miseráveis e contra casamentos e funerais.

    As explosões parecem pequenas bombas atômicas. Os bombardeadores na Arábia Saudita trabalham lado a lado com os oficiais britânicos. Este fato não está no noticiário da noite.

    A propaganda é mais eficaz quando o nosso consentimento é engendrado por gente com uma boa educação – Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia – e com carreiras na BBC, The Guardian, The New York Times, The Washington Post.

    Estas organizações são conhecidos como a mídia liberal. Eles se apresentam como iluminados, tribunas progressistas do espírito moral (zeitgeist) da época. Eles são anti-racistas, pró-feministas e pró-LGBT.

    E eles amam a guerra.

    Enquanto falam em defesa do feminismo, apoiam guerras de rapina que negam os direitos de inúmeras mulheres, incluindo o direito à vida.

    Em 2011, a Líbia, então um estado moderno, foi destruída com o pretexto de que Muammar Kadafi estava prestes a cometer genocídio contra seu próprio povo. Essa foi uma notícia incessante; e não houve evidência. Era uma mentira.

    Na verdade, a Grã-Bretanha, Europa e os Estados Unidos queriam aquilo a que gostam de chamar de "mudança de regime" na Líbia, o maior produtor de petróleo da África. A influência de Kadafi no continente e, acima de tudo, a sua independência eram intoleráveis.

    Assim, ele foi assassinado com uma faca nas nádegas por fanáticos apoiados pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton aplaudiu sua morte horrível diante câmara, declarando: "Nós viemos, nós vimos, ele morreu!"

    A destruição da Líbia foi um triunfo da mídia. À medida que os tambores de guerra eram rufados, Jonathan Freedland escrevia no Guardian: "Embora os riscos sejam muito reais, a necessidade de intervenção continua a ser forte."

    Intervenção – é uma palavra educada, benevolente, utilizada pelo Guardian, cujo significado real, para a Líbia, foi a morte e destruição.

    De acordo com os seus próprios registos, a OTAN lançou 9.700 "missões de ataque" contra a Líbia, das quais mais de um terço foram destinadas a alvos civis. Elas incluíam mísseis com ogivas de urânio. Olhe para as fotografias dos escombros de Misurata e Sirte, e as valas comuns identificadas pela Cruz Vermelha. O relatório da UNICEF sobre as crianças mortas diz, "a maioria [delas] com idade inferior a dez anos".

    Como consequência direta, Sirte tornou-se a capital do Daesh.

    A Ucrânia é outro triunfo da mídia. Jornais liberais respeitáveis, como o New York Times, o Washington Post e The Guardian, e emissoras tradicionais, como a BBC, NBC, CBS, CNN têm desempenhado um papel fundamental no condicionamento seus telespectadores para aceitar uma nova e perigosa guerra fria.

    Todos têm deturpado os acontecimentos na Ucrânia como sendo um ato maligno da Rússia quando, na verdade, o golpe na Ucrânia em 2014 foi o trabalho dos Estados Unidos, ajudado pela Alemanha e pela OTAN.

    Esta inversão da realidade é tão difusa que a intimidação militar da Rússia por Washington não é notícia. Ela é ocultada por trás de uma campanha de difamação e terror da mesma espécie daquela em que cresci durante a primeira guerra fria. Mais uma vez, os Ruskies estão a vir apanhar-nos, liderado por outro Staline, a quem The Economist descreve como o diabo.

    A supressão da verdade sobre a Ucrânia é um dos mais completos blackouts noticiosos que posso lembrar. Os fascistas que engendraram o golpe em Kiev são da mesma cepa que apoiou a invasão nazista da União Soviética em 1941. De todos os alarmismos acerca da ascensão do fascismo anti-semita na Europa, nunca algum líder sequer menciona os fascistas na Ucrânia – exceto Vladimir Putin, mas ele não conta.

    Muitos na mídia ocidental têm trabalhado arduamente para apresentar a população étnica de língua russa da Ucrânia como estranha a seu próprio país, como agentes de Moscou, quase nunca como ucranianos que pretendem uma federação dentro Ucrânia e como cidadãos ucranianos resistindo a um golpe estrangeiro orquestrada contra seu governo eleito.

    Há quase a alegria de uma reunião de colegas entre os belicistas.

    Os que rufam o tambor do Washington Post a incitar à guerra com a Rússia são os mesmos editorialistas que publicaram a mentira de que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa.

    Para a maior parte de nós, a campanha presidencial norte-americana é um espetáculo de anormalidade da mídia, em que Donald Trump é o vilão.

    Mas Trump é odiado por aqueles com poder nos Estados Unidos por razões que pouco têm a ver com o seu comportamento obnóxio e suas opiniões. Para o governo invisível em Washington, o imprevisível Trump é um obstáculo para o projeto da América para o século 21.

    Este é manter o domínio dos Estados Unidos, subjugar a Rússia e, se possível, a China.

    Para os militaristas em Washington, o problema real com Trump é que, em seus momentos de lucidez, ele parece não querer uma guerra com a Rússia; ele quer dialogar com o presidente russo, não combatê-lo; ele diz que quer dialogar com o presidente da China.

    No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu não ser o primeiro a introduzir armas nucleares num conflito. Ele afirmou: "Eu certamente não faria o primeiro ataque. Uma vez que a alternativa nuclear se verifica, está tudo acabado". Não era novidade.

    Será que ele realmente quiz dizer isso? Quem sabe? Muitas vezes ele se contradiz. Mas o que está claro é que Trump é considerado uma séria ameaça ao status quo mantido pela vasta máquina de segurança nacional que dirige os Estados Unidos, pouco importando quem está na Casa Branca.

    A CIA quer vê-lo derrotado. O Pentágono quer vê-lo derrotado. A mídia quer vê-loderrotado. Mesmo seu próprio partido quer vê-lo derrotado. Ele é uma ameaça para os governantes do mundo – ao contrário de Clinton, que não deixou nenhuma dúvida de que ela está preparada para ir para a guerra com armas nucleares contra a Russia e a China.

    Clinton tem cabedal para isso, como muitas vezes se vangloria. Na verdade, seu registro é comprovado. Como senadora, apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando concorreu contra Obama em 2008, ameaçou "obliterar totalmente" o Irã0. Como secretária de Estado, foi conivente com a destruição de governos na Líbia e em Honduras e pôs em marcha o assédio da China.

    Ela já se comprometeu a apoiar um No Fly Zone na Síria – uma provocação direta para a guerra com a Rússia. Clinton pode muito bem se tornar a presidente mais perigosa dos Estados Unidos de toda a minha vida – uma distinção para a qual a concorrência é feroz.

    Sem um fiapo de prova, Clinton pôs-se a acusar a Rússia de apoiar Trump e de ter hackeado seus emails. Divulgados pela WikiLeaks, esses emails revelam que tudo que Clinton diz no privado, em discursos e "palestras" compradas por ricos e poderosos, é exatamente o oposto do que ela diz publicamente.

    Por isso é tão importante silenciar e ameaçar furiosamente Julian Assange. Como editor da WikiLeaks, Assange conhece a verdade. E deixem-me esclarecer desde já e tranquilizar os muitos que se preocupam: Assange está bem; e a WikiLeaks está operando a pleno vapor.

    Hoje está em curso a maior acumulação de forças americanas lideradas desde a Segunda Guerra Mundial – no Cáucaso e na Europa Oriental, na fronteira com a Rússia, na Ásia e no Pacífico, onde o alvo é a China.

    Tenha isso em mente quando o circo da eleição presidencial chegar ao seu final em 8 de novembro. Se o vencedor for a Clinton, um coro grego de comentadores tolos vão comemorar sua coroação como um grande passo em frente para as mulheres. Nenhum vai mencionar as vítimas de Clinton: as mulheres da Síria, as mulheres do Iraque, as mulheres da Líbia. Ninguém vai mencionar os exercícios de defesa civil que estão sendo realizados na Rússia. Ninguém vai lembrar as " tochas da liberdade" de Edward Bernay.

    O porta-voz de George Bush certa vez chamou a mídia de "facilitadores cúmplices".

    Vindo de um alto funcionário em uma administração cujas mentiras, potenciadas pela mídia, causaram aquele sofrimento, essa descrição é um aviso da história.

    Em 1946 o promotor do Tribunal de Nuremberg disse acerca da mídia alemã: "Antes de cada grande agressão, eles iniciaram uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer suas vítimas e para preparar o povo alemão psicologicamente para o ataque. No sistema de propaganda, foram a imprensa diária e a rádio as armas mais importantes".
    28/Outubro/2016
     
    O original encontra-se em www.counterpunch.org/...
    e a tradução em choldraboldra.blogspot.pt/... (foram efetuadas pequenas alterações).


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

    terça-feira, 1 de novembro de 2016

    Como funciona a máquina de propaganda do ocidente


    por Nikolai Starikov 
     
    1. O seu princípio fundamental é a fragmentação. Isto pode parecer estranho, mas a fragmentação é o fundamento supremo da lavagem ao cérebro ocidental.

    Não é segredo que o sistema de ensino nas "democracias avançadas" está concebido de forma a criar artificialmente uma visão muito estreita do mundo. Em contrapartida, o sistema escolar soviético tenta criar uma visão abrangente do mundo, mesmo entre os alunos mais preguiçosos, enchendo-lhes a cabeça com alta matemática, física, química e astronomia, por mais improvável que seja eles virem a usar todos esses conhecimentos. A compreensão da forma como o mundo está interligado, a causa e o efeito, e a capacidade de juntar tudo e analisar diversos factos, chama-se "pensamento analítico". É o primeiro passo para a criatividade.

    Todas estas coisas desapareceram do sistema de ensino ocidental. O nosso país tentou adotar este sistema, numa "reforma do ensino", que tem um objetivo claro: a fragmentação da sociedade, não apenas em classes, mas em castas. A casta dirigente recebe um ensino clássico em escolas privilegiadas, as Cambridges e Eatons, em que se ensina uma visão abrangente do mundo e em que são forjados os futuros líderes e as elites do mundo ocidental. Todos os restantes recebem um "sistema de ensino avançado" que, na prática, aboliu os trabalhos de casa, e os estudantes acabam por quase nem saber ler. Quem quer que tenha frequentado a escola na URSS e conheça as escolas ocidentais poderá dizer como o programa na União Soviética era muito mais sólido. Os nossos estudantes do liceu resolviam problemas que os ocidentais estudavam na faculdade.

    A ênfase neste sistema de ensino no Ocidente não acontece por acaso.

    A fragmentação da consciência e a falta de uma visão abrangente do mundo são características da perceção da realidade de uma criança. Afinal, as crianças vivem no seu mundo, um mundo de jogos, de contos de fadas e de sonhos. Acabam por desenvolver uma visão adulta do mundo, com base na experiência, observando o que os rodeia segundo o que é a realidade.

    2. O objetivo do sistema de ensino ocidental é criar crianças. Crianças crescidas. Os únicos adultos no sistema são os formados nas universidades de elite que recebem um ensino a sério. Daí, a ingenuidade espantosa dos ocidentais que caem facilmente em todo o tipo de absurdos, se lhos repetirem na TV. Por exemplo, a ideia de que os EUA são um farol de liberdade e democracia para todo o mundo, que, em vez de defenderem os seus interesses, apenas procuram disseminar uma "liberdade" bastante nebulosa.

    Uma criança é fácil de convencer – o segredo é repetir-lhe uma história com convicção e energia. A máquina da informação ocidental é convincente porque regurgita o mesmo ponto de vista por toda a parte: não se apresenta outro ponto de vista. Ocorre o mesmo efeito, quando uma criança faz a mesma pergunta, primeiro à mãe, depois ao pai e, finalmente à avó. Perante a mesma resposta, convence-se que assim deve ser.

    3. As crianças adoram brincar e divertir-se e a civilização ocidental moderna amplia a brincadeira e o divertimento eternamente. Há milhares de jogos e centenas de aplicações para jogos. Há filmes, livros, redes e locais especiais para jogar. Faz-se tudo para garantir que os adultos brinquem tanto quanto queiram. Será importante para a sociedade e para a humanidade, no seu todo, que as pessoas brinquem assim tanto? Qual é o objetivo da brincadeira para a espécie humana? Não se prevê qualquer benefício. Mas é conveniente poder governar indivíduos que só querem divertir-se, como crianças. Esta tendência leva à imaturidade. As pessoas não querem ter filhos – não admira, já que as crianças não constituem família nem procriam. É-lhes desnecessário. Ter uma família e criar filhos nossos geralmente deixa pouco tempo livre para os jogos e para o "divertimento".

    Estas três características da civilização ocidental estão por trás da estratégia usada para manipular o Zé Povinho.

    Colocam-se com êxito, na cabeça dele, pensamentos coloridos e fragmentados. Este Zé Povinho, homem-criança, o ocidental médio, não tem uma compreensão real do que acontece e está plenamente disposto a acreditar numa história, se ela for bastante colorida e repetida bastantes vezes.

    Então, como distinguir uma manipulação de uma apresentação honesta dos factos?
         1. Os manipuladores vão apelar às nossas emoções, usando os sentimentos – e uma quantidade mínima de factos – para criar uma impressão falsa.
         2. Os manipuladores vão apresentar os factos na sequência errada, violando a lógica, invertendo a causa e efeito. Vão mostrar, invariavelmente, um fragmento do que está a acontecer, mas nunca o quadro completo.

    Reparem como as campanhas dos meios de comunicação ocidentais, assim como as dos nossos liberais pró-ocidentais, que estão ligados ao Ocidente por um cordão umbilical invisível, são sempre fragmentadas e emotivas.

    Em agosto de 2008, "eram todos georgianos". Noutra altura, estavam a lutar contra a "tirania de Saddam Hussein". Uns anos depois, "reinava grande liberdade na Ucrânia", quando queimaram e apedrejaram a força policial desarmada "Berkut". Depois, de repente, estão cheios de preocupações quanto ao destino de Alepo, embora ainda ontem, não se preocupassem minimamente com o destino de Donetsk ou de Damasco e de Homs. A seguir, metem os pés pelas mãos quanto a "Putin a envenenar Litvinenko com polónio", e ninguém se preocupa em saber se isto foi verdade – um método assim certamente já teria envenenado mais de uma pessoa, possivelmente toda a cidade de Londres.

    Colocam um pequeno fragmento de informações na boca do Zé Povinho ocidental, um homem-criança, e embrulham-no numa bela imagem televisiva. A imagem mostra camiões queimados, mas uma total ausência de crateras de bombas. Todos os que veem acreditam que a imagem mostra o resultado de um ataque da força aérea russa a uma coluna humanitária. Ninguém denuncia o facto de que, se a coluna tivesse sido realmente atingida por bombas aéreas, os camiões não se tinham incendiado, teriam sido pulverizados. Mas a imagem é a cores vivas e tão convincente!

    Quem é o culpado pelo dilúvio de refugiados na Europa? Obviamente, os dirigentes europeus que abriram as comportas do continente a milhões de refugiados, principalmente do Afeganistão e de outros países do Médio Oriente. Mas o que é que diz a máquina de propaganda ocidental? A inundação de refugiados é culpa da Rússia, porque esta dificulta o derrube de Assad. Se a Rússia não tivesse interferido, a guerra já estaria acabada e ninguém teria que fugir para a Europa. A mentira não é apenas uma mentira óbvia, é uma dupla mentira: Se anseiam pela paz na Síria, não apoiem quem a violou – ou seja, a "oposição". Há seis anos, não havia refugiados sírios rumo à Europa, embora Bashar al-Assad estivesse vivo e saudável como seu dirigente. As ações da Rússia destinam-se a repor esse status quo anterior à guerra. Mas a Rússia está a ser acusada pelo derramamento de sangue e pela destruição da Síria e também pelo facto de uns 100 mil refugiados terem ido parar à Alemanha.

    Quando o Pentágono ou o Departamento de Estado, muito a sério, referenciam "provas do Facebook", não estão a gozar nem a ser desonestos. Também eles foram educados PARA ISSO. É por isso que alguns deles acreditam genuinamente que essas informações são verdadeiras. Evidentemente, os adultos, a mamã e o papá nunca mentiriam ao seu filhinho, não é? Portanto, a criança acredita genuinamente que, se se recusar a comer a sopa, aparecerá um papão assustador, zangado com a sua falta de apetite – com todas as consequências. A criança nem sequer concebe a ideia de que não existe nenhum papão e que a mãe o inventou, para atingir o seu objetivo prático (alimentar a criança relutante). Um ocidental não pode acreditar que o filme sobre "ataques russos a uma coluna humanitária" possa ter sido fabricado, ou que o MI-6 possa ter envenenado Litvinenko com sais de tálio, ou que os meios de comunicação ocidentais desçam tão baixo como a mostrar "motins em Moscovo" com palmeiras ao fundo (porque, na realidade, a cena passa-se com motins em Atenas). Têm a certeza que um "país civilizado" nunca entraria numa falsificação destas?

    Assim, agora o Ocidente e a Quinta Coluna na Rússia "são residentes de Alepo" ("Je suis Aleppo!"), apesar de nenhum deles se importar com a Síria em geral e com Alepo em particular. Só que, agora, os projetores do circo de informações ocidentais estão virados para aquele lado. Portanto, toda a gente olha obedientemente naquela direção, observando apenas o que lhe mostram.

    Mas não se preocupem, daqui a nada vão esquecer tudo sobre Alepo. Vão mostrar-lhes e contar-lhes um conto assustador, novinho em folha, e o infantil Zé Povinho vai acreditar nisso. Vão começar a preocupar-se com alguém ou com qualquer coisa… até que a máquina de propaganda ponha em destaque outros factos, noutro país, deixando de noticiar a tragédia de Donbas ou das diversas cidades da Síria, ou do Iémen, ou de centenas de outros locais do planeta, cujas tragédias diárias recebem dos meios de comunicação ocidentais apenas um frio encolher de ombros.
    15/outubro/2016 
     
    O original encontra-se no blogue de Nikolai Starikov e a versão em inglês em
    russia-insider.com/en/politics/how-western-propaganda-machine-works/ri17016
    Tradução de Margarida Ferreira.


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .